Aberto
Uma crônica
Quatro das seis garrafas de cerveja tinham acabado quando Gustavo chegou, alardeado, sem nenhum constrangimento de se anunciar ao bar inteiro. Juntou-se aos três amigos que o aguardavam, não sem antes enlaçá-los um a um e imprimir nas faces barbadas um beijo. Era assim que ele fazia desde que soube ser o único heterossexual do quarteto. Era o jeito que havia encontrado de reafirmar vezes sem fim que não guardava preconceito algum. Os amigos sabiam que, na verdade, era uma forma um tanto indiscreta de se vender como um macho de rígida masculinidade, um contraponto pensado às fragilidades, mas com um adicional de doçura.
Estevão gostava, e tinha a pachorra de parafrasear ditos bíblicos: virava o rosto e oferecia a outra face. Anselmo limpava o beijo com a gola da camiseta. Oto impedia com a mão, o dedo médio em riste.
“É a minha cota?”, perguntou o recém-chegado indicando a mesa, e sem cerimônia foi virando a cerveja no copo vazio diante de si. Sorveu quase tudo dum só gole.
“Eita, que o dia de alguém foi tenso”. Quem lançou a observação foi Anselmo.
Gustavo olhou para o amigo enquanto reabastecia o copo. “Vamos pedir mais um balde?”, foi o que disse.
“A gente tá aqui desde as 15h, gato”, era Oto o desencorajador.
O trio estudava publicidade na mesma sala. Estevão já tinha garantido as notas para fechar o semestre; Oto previa uma prova final inevitável e na cabeça de Anselmo a semiótica só entraria se lá a colocassem cirurgicamente. Com esse saldo, eles abandonaram a sala sem nenhuma consideração à disciplina. Preferiam os signos do bar, com seus significados e significantes. Mas precisavam voltar para a aula de metodologia científica.
“Porque vocês acham o Patrício um gostoso”, atalhou Gustavo.
“Oi? Claro que não. Ou a gente fez essa aula ou parte dos créditos do TCC vai pro beleléu”, era Anselmo.
“Mas ele é um gostoso também”. Estevão: “Oto!”
“Relaxa, eu já tive meus desejos por professoras. Lembram da Lilian? Eu só passei em literatura no segundo ano por causa dela. Cada parte era uma escola literária; aqueles peitos realistas, aquela boca naturalista, e a voz...ah, a voz! Puro romantismo”.
Os amigos reviraram os olhos. Tinham anos de experiência como espectadores das aventuras de Gustavo.
“Você sabe que isso te coloca mais do lado machista da força, né?”, a provocação veio de Oto.
“Anselmo, permite outro beijo para espiar minha maldade?”. A resposta: “paga a conta e tá perdoado”.
“Vai dizer que vocês vierem sem grana?
“Apenas com carisma e vontade de beber”, atalhou Estevão.
“Se ficarem mais uma rodada comigo, é por minha conta”. Três pares de olhos se encararam. E sorriram.
Oto encontrou uma solução. “Vou enviar uma mensagem para a Pâmela. Ela assina a chamada pra gente”.
“Ainda tem isso de assinar chamada?”
Gustavo tinha terminado Ciências da Computação no ano anterior. Os amigos só deram de ombros, encheram os copos e brindaram à Pamela.
Com o brinde terminado, uma voz chamou a atenção de Anselmo. O mais discretamente que pôde, ele girou o corpo para espiar. O reconhecimento da dona da voz ficou claro em seu rosto e o desconhecimento do homem que a acompanhava fez o queixo dele cair. A careta não passou despercebida aos amigos. Gustavo não se deteve.
“Qual é a do espanto?”
“A Mônica separou do Bruno?”
“Não que eu saiba”, foi a resposta de Oto. Estevão deu de ombros. Gustavo saciou a curiosidade que pairava sobre a mesa.
“Não. Eles abriram o relacionamento. A Lívia me contou quando a gente deu uns beijos no fim da semana passada. Ela e o Bruno se pegaram e tal...”. Ele foi interrompido pela curiosidade de Anselmo.
“Relacionamento aberto?”
“É, quando os dois ainda namoram, mas se permitem ficar com outras pessoas”.
“Eu sei o que significa, Gusta”.
“Então por que o espanto?”
“Ah, sei lá. Não achei que os heteros estavam nessa onda”.
“Ahá! Quem é o preconceituoso da mesa agora?”. Gustavo não acusava o amigo de verdade, dava para ver pela forma como falava, daquele jeito de quem azucrina para ser divertido. Oto e Estevão, por outro lado, estavam sérios. E Gustavo detestava ver alguém fora do tom do papo.
“O que vocês acham?”
Estevão apressou-se em atarracar o copo de cerveja, como que ganhando tempo. Oto não achou escapatória. Parecia tenso, a mão inquieta mexendo no dispenser de guardanapo. Quando falou, a agitação ficou ainda mais evidente.
“Que a Mônica parece feliz. E deve estar mesmo: tem o amor e os sabores”, e forçou um risinho amarelo.
Se o amigo percebeu ou não o desconforto, ele não conseguiu captar, mas Gustavo rapidamente voltou a pergunta a Anselmo.
Este, por sua voz, não poupou discurso.
“Podem me julgar quanto quiser, mas eu sou conservador quanto a isso. Não faz muito sentido na minha cabeça. Vamos pensar no seguinte: imagine que eu decida que vou almoçar num restaurante; escolho, me dirijo até lá, ocupo uma mesa, mas não peço absolutamente nada. Ou então que eu faça uma viagem, para um lugar que não conheço; organizo tudo: passagem, monto um roteiro legal, faço as malas com roupas diversas, mas não saio do quarto do hotel. Ora, não faz sentido, faz? Se eu não vou almoçar, não preciso ir ao restaurante. Se não vou passear, não preciso fazer uma viagem. Se eu não busco fidelidade, para que uma relação? Solteiro eu posso sair com quantas pessoas eu quiser e ponto”.
Oto e Estevão se entreolharam.
Gustavo: “você até tem um ponto, mas eu posso complicar a sua comparação. A gente compra o que comer em casa e ainda assim gosta de experimentar outros pratos na rua. O mesmo vale para a casa: é bom conhecer e dormir em outros lugares, mas excepcional voltar para o que é nosso”.
“Então é sobre posse?”, provocou Anselmo.
“Claro que não, é no sentido de conforto, aconchego”.
“Isso para mim é como usar as pessoas”.
Ainda Gustavo: “mas qualquer relação que a gente estabeleça é baseada em algum usufruto”.
“Mas e o sentimento?”
“Você passa a ser indiferente à sua mãe porque adquire amor pelo seu namorado?”
“Adquire? Desde quando o sentimento virou algo do universo pecuniário?”
“Anselmo, por favor, nem eu das exatas sou assim tão literal”.
“Mas e o ciúme, hein?”
“Um sentimento ancestral, mas daqueles bonitos que não devem ser celebrados e mantidos, mas combatido”, Gustavo sentenciou.
Anselmo revirou os olhos e amarrou a cara: “mais essa”.
“Lógico. Flanamos pelo mundo, meu amigo. Devemos compartilhar, ter senso de comunidade. A história provou que nos fecharmos em panelinhas só traz coisa ruim.”
O debate seguia apenas entre dois interlocutores. A cerveja já tinha acabado àquela altura. Oto e Estevão continuavam com uma atitude reservada, como que encabulados com a temática.
“O que há com vocês, hein?”, Gustavo perguntou. No instante da indagação o garçom apareceu no meio deles e murmurando um pedindo de licença retirou as garrafas vazias e passou um pano pela superfície úmida da mesa.
Gustavo sustentou a questão, como que determinado a não ficar sem resposta.
“A gente tentou, ok? Agora me deixa em paz”, soltou Estevão quase num suspiro.
“A gente quem? O quê?”, o espanto veio de Anselmo.
Gustavo foi mais sagaz.
“Espera um pouco aí. Dois dos meus amigos estão se pegando, é isso mesmo?”.
A confirmação veio de uma forma das mais tolas. Um par de bochechas mais avermelhada que a iluminação de uma balada barata – a de Oto, que recepcionou de bom grado a mão de Estevão sobre o ombro, como um consolo.
“Como é que é?”, o espanto foi de Anselmo, e não vinha sozinho, mas acompanhado de raiva, rancor até.
Na mesa vizinha, alheia à conversação que se desenrolava, Mônica beijava o companheiro de bar.
📚 Indicação de leitura: Conversas entre amigos, de Sally Rooney (Cia. das Letras, 2017)
🎶 Indicação de música: Pour un infidèle, de Coeur de Pirate
🎥 Indicação de filme: Os sonhadores (2003)
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