Açúcar
Um diálogo
“Eu queria ser um filósofo”.
“Ah é? Mas você sabe o que um filósofo faz?”
“Sei, lógico. Ele filosofa”.
“Hahaha creio que isso não explica muita coisa, o que acha?”
“Por isso. Não parece que é só ficar por aí com a mão na consciência pensando conceitos para suscitar as pessoas a colocaram as próprias mãos nas próprias consciências?”
“Falando assim parece até que é uma profissão criadora de manuais de instrução...”
“Não é pra tanto. Filosofar não é dar o passo a passo, mas ajudar a desbravar a mata do desconhecimento”.
“Não dá o peixe, mas ensina a pescar”.
“Algo assim, mas não gosto dessa mania de aludir à coisa bíblica. Se vincula à religião, uma menção sequer, dá merda”.
“Não tinha pensado nisso”.
“Viu? Por isso o filósofo é mais esperto e fornece diretrizes”.
“Pensando assim é quase como um psicólogo, então”.
“Claro que não. O filósofo lança as perguntas do lado de fora, aperta a sua mão e segue a vida; o psicólogo tenta fingir que não, mas quer entrar; vai se esgueirando até conseguir permissão e aí começa a cavucar. O psicólogo é mais parente do arqueólogo. O filósofo tá mais pra libélula. Quando dá as caras, as coisas parecem em ordem. Aí ele voa aqui e ali deixando uma impressão de coisas ajustadas e sabidas, até a pessoa se dar conta de que, na realidade, nada sabe e soltar o primeiro porquê”.
“Tipo uma criança”.
“Não sei também. A criança quer conhecer o mundo que habita; o filósofo quer colocá-lo à prova de si. Não se contenta nunca”.
“Então talvez o filósofo não ponha a mão apenas na própria consciência para fazer as perguntas. Talvez ele também estenda a mão à consciência alheia”.
“Mero empréstimo da antropologia e sociologia. Mas sem intenção irrestrita de conhecer o homem ou a sociedade, apenas a si”.
“Mas sendo peça da sociedade, também não é importante conhecê-la?”
“Se se conhece a cabeça de um homem, apreende uma sociedade inteira”.
“Mas nem todos são iguais”.
“Econômica e culturalmente, talvez, mas nos mistérios da existência, é sempre a mesma coisa”.
“Vai ver por isso é difícil de entender”.
“O mundo ou o filósofo?”
“Os dois, eu acho. Mas por que você não estudou filosofia, então?”
“Essa é a pergunta que eu precisaria ter me formado filósofo para conseguir me fazer com alguma provocação satisfatória”.
“E como veio parar na confeitaria?”
“Porque há algo de fascinante em como um doce transforma uma pessoa, seja pela falta dele, pelo excesso, porque é bom demais ou ruim. Chega a ser perturbador, até”.
“Nunca tinha pensado nisso”.
“Aí está. Veja como ele está em toda parte, o açúcar. Ele está nas comemorações, está em presentes, está até quando dizem não gostar dele. E mesmo quando não está inteiro ou íntegro, tentam imitá-lo”.
“Mas a confeitaria é precisão. Que espaço sobra para questões quando as fórmulas todas estão dadas?”
“A subversão”.
“Não entendi”.
“É inevitável não desejar intensamente colocar 200ml quando se pede 150. Trocar farinhas...”
“E dá certo?”
“Resulta no que cabe àquilo resultar”.
“Mas aí não é o produto esperado”.
“Ora, espera-se que dois irmãos filhos do mesmo pai e mesma mãe sejam os mesmos apenas pela preparação no mesmo forno?”
“Mas isso é genética, não confeitaria”.
“Tudo é tudo”.
“Você já escreveu as suas ideias?”
“Não, eu ainda não as amadureci o bastante. Não há pressa nenhuma”.
“Pois devia. Se esperar demais, vai que apodrecem”.
“Aí está: ideias não são frutas”.
“Entendi. Tudo é tudo, mas não totalmente”.
“Até gostei dessa alusão. Ideias como frutas cheias de sementes se espalhando por aí. Se desfazendo pelo caminho ou se transformando noutra coisa”.
“Acho que preciso ir agora”.
“Vai querer alguma coisa?”
“Hum… tem salgado?”.
📚 Indicação de leitura: As coisas que faltam, de Rita da Nova (Manuscrito, 2024)
🎶 Indicação de música: Apple Pie, de Lizzy McAlpine
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“Você já escreveu suas ideias?” Agora vc já pode dizer que sim!
Esta frase é realmente filosófica: “Ideias são como frutas cheias de sementes se espalhando por aí. Se desfazendo pelo caminho ou se transformando noutra coisa.” Que figura d e linguagem linda esta! 👏🏻👏🏻👏🏻
E pensar que tudo começou com um doce, heim Márcio hahahah. No fundo, você acabou filosofando sobre confeitaria e confeitando a filosofia. Tudo é tudo, né? Inclusive o salgado que encerra a conversa. Adorei!