Amigo
Uma crônica
Quatro dias haviam passado quando eu lembrei que tinha esquecido de responder uma mensagem do meu melhor amigo. Estava cortando cebola para preparar um refogado quando, ao invés de lágrimas, me veio um estalo e recordei. Eu podia terminar aquele processo antes, ainda tinha o alho para picar e depois lavava a mão de uma só vez, mas me senti tão culpado que interrompi tudo, deixei os meus cubinhos de lado e enfiei a mão debaixo da água corrente; o segredo, segundo diz o ensinamento cuja origem desconheço, é não esfregar, que o cheiro todo é lavado. Segui o prático ritual e funcionou.
Então fui atrás do celular, que tinha ficado carregando no quarto. Abri o aplicativo de mensagem e lá estava. O recado era breve: um convite para um almoço na quinta-feira. Que droga; era sexta já.
Enviei um pedido de desculpas com uma sequência de carinhas tristes. Disse que estive tão ocupado com as coisas do trabalho que mal tinha checado as redes. Pensei que ele me daria um gelo, deixaria o meu recado de escanteio, fermentando sentimentos para me devolver uma resposta inflada de rancor, mas, pelo contrário. Poucos minutos depois (eu sequer tinha retomado o meu processo de picar legumes) e ele me escreveu de volta.
Quando puder, remarcamos, foi o que mandou. Se não estiver ocupado, vem em casa, mandei. Agora, ele perguntou. Se puder... estou cozinhando, então jantamos juntos. Preciso de uma hora e meia, apontou. Tenho todo o tempo, ainda mais depois da minha gafe, escrevi. Ele concluiu a troca de mensagens com um emoji de gargalhada.
Assim que devolvi o celular ao carregador, me pus a pensar em como incrementar o meu cardápio inicial. Também fui checar no armário para ver se ainda me sobrava uma garrafa de vinho. Eu nunca fui de beber com frequência, mas jantares assim, com convidado, sempre pediam tal elaboração. Encontrei um rótulo duvidoso, um que tinha vindo em alguma cesta de Natal de fim de ano que parecia gritar, ainda lacrado, que daria dor de cabeça. Tive que apelar para o aplicativo de delivery e pedi logo duas garrafas, uma para o jantar e outra para uma tentativa de estoque.
Inventei uma salada com uma seleção de folhas e vegetais que tinha na geladeira e improvisei um molho. Queria fazer uma entrada chique, mas as ideias me escapavam, então fui no óbvio.
Para o prato principal eu manteria o risoto que era a minha ideia inicial. Como ainda faltava mais de uma hora para a chegada do Daniel, decidi que era tempo suficiente de preparar um bolo como sobremesa.
Entrei no modo cozinheiro tão intensamente e concentrado que levei um susto quando o interfone berrou. Era a entrega das bebidas. Abaixei o fogo das panelas e desci. Na portaria, além dos vinhos, acabei resgatando também o Daniel, que adivinhei a poucos passos do prédio.
Vamos ficar bêbados, ele me perguntou me dando um abraço e estendendo uma garrafa de vinho que tinha trazido. Se soubesse que era sua intenção, teria pedido mais, eu respondi. E entramos.
Daniel e eu estudamos juntos durante os dois primeiros anos da faculdade, antes que ele repensasse a vida e resolvesse mudar de curso. A nossa amizade foi resultado de um trabalho em trio designado pelo professor. A raiva da nossa colega de grupo foi a primeira coisa em comum que nos uniu. Com o tempo, outros sentimentos mais nobres foram agregados e aí não desgrudamos mais.
Depois da graduação, no entanto, a rotina inevitável foi nos puxando para direções que nem sempre eram convergentes, então os encontros cotidianos foram virando mensagens cotidianas, depois balanços gerais sobre a vida e, talvez por minha culpa, caminhava para um vazio.
Desculpa, eu disse assim que entramos no apartamento. Para com isso, eu também já te deixei no vácuo. Ah, é, quando, desafiei. Ele se pôs a pensar, a cabeça apoiada no queixo com o olhar perdido buscando memórias. Viu só, não lembra porque não tem, acudi. Tenho certeza de que tem, sim. Eu que ando desmemoriado. E riu. Não julgo, a gente tá ficando velho, emendei. Cara, nem fale. Eu tava pensando isso nessa semana. Que agora tô mais perto dos 40 do que dos 30 e não sei o que fazer com essa informação. Ué, o mesmo que em todos os outros anos; nadinha. Só ir vivendo que fica tudo bem. Mas quando é quando a gente tem controle? Eu ainda tenho a sensação de ser um adolescente que precisa ser orientado ou então vai se meter em enrascada. Para com isso, olha pra você, eu disse. Mas por dentro eu concordava com o Daniel. Eu também vivia com aquela sensação de que não era adulto o suficiente a despeito do ano que minha data de nascimento apontava, dos fios brancos que davam as caras e da minha própria vida cotidiana, mas de alguma maneira era impelido se não a contradizê-lo, a questioná-lo sobre tudo o que dizia, como se, confrontado, ele fosse achar uma solução mágica ou uma explicação lógica para tudo; algo que serviria de resposta. Talvez mais para mim do que para ele.
Está uma delícia a salada, Daniel comentou. Agradeci meneando a cabeça enquanto mastigava um pedaço crocante da alface com um amendoim. E pensar que o nosso cardápio variava em sabores de miojo e de recheio de bolacha hahaha. Credo, nem fale. E o seu favorito ainda era o de tomate, que eu sempre tive aversão, comentei, já com a boca livre.
Mas a gente concordava na marca da bolacha. Nem tão cara quanto uma Passatempo, mas sem ser a de procedência duvidosa, esse era o nosso lema, lembrei.
Olha pra gente agora! Salada, risoto e vinho.
E bolo de chocolate, emendei.
Uau, até que os quase quarenta não vão nada mal, vai, tenho que admitir.
Você sempre encontrando propósito na comida.
E tem coisa melhor?
Por agora sou obrigado a concordar.
Eu fiquei um tempo sem entrar em redes sociais, eu disse. Por isso acabei vendo a sua mensagem só depois.
Prevejo que vai demorar para você esquecer essa história.
É que fiquei com vergonha. Estou, na verdade.
Eu também queria ficar longe das redes, mas não dá. Trabalho nelas todo dia; mesmo que não olhe as minhas, continuo sendo puxado para o abismo.
Queria ver como era a vida real de novo.
Não entendi, ele falou, raspando o prato. Fiquei contente; era um gesto sutil que indicava que a comida estava boa.
É só uma paranoia minha. Eu detesto o termo, mas eu realmente achava estar cronicamente on-line. E sabe como me dei conta disso?
Enquanto eu falava, Daniel serviu-se de mais risoto. À minha pergunta ele respondeu com um balançar de cabeça.
Lembra o temporal da semana passada? Quase metade da cidade sem energia por um dia inteiro, e eu estava nesse grupo. O celular, viciado que só em ficar na tomada, não aguentou três horas.
Daniel me encarou com semblante de desespero. E aí, perguntou.
Os primeiros momentos foram bem esquisitos. Eu queria saber a hora, mas não tinha relógio, eu queria fazer algo diferente para o almoço, mas não tinha como pesquisar a receita, queria conversar, mas não tinha ninguém.
Como você saiu dessa, meu amigo questionou, enquanto levava o prato para a pia e, numa atitude besta, começava a lavar.
Você não vai fazer isso. Isso o quê. Deixa esse prato aí e vem para ficar de boa na mesa, ainda vamos comer bolo. Tá, mas vou te ajudar com isso depois. Depois você pode limpar até o meu quarto se quiser. Daniel largou rapidinho o prato na pia e retomou o assento.
E eu continuei minha lembrança. Eu saí de casa, comprei um relógio, andei sem usar o GPS por ruazinhas que nem conhecia antes e almocei num restaurante bonitinho no centro. E sabe o que mais, tentei fazer mistério.
Funcionou.
Passei em frente à sua casa.
Ah, eu trabalhei presencial na semana passada.
Eu sei disso, eu não chamei nem nada. Mas foi um jeito de me reconectar, de lembrar que eu ainda sabia do endereço, que a única coisa que nos liga não é só um aparelho celular e a conexão com a internet.
Não mesmo, ele atalhou. Por isso que te chamei para almoçar.
É, e eu não vi. Mas ainda assim, foi pela internet, eu queria mais. Queria que a gente pudesse não depender de agendamentos e de intermediação. Que fosse simplesmente chegar e conversar. Chegar e dar risada. Chegar e viver.
Seria incrível, mas é difícil. Você acha que dá?
Não, acho que não. Mas eu queria muito.
Eu também, mas sabe o que queria mais?
Dessa vez eu é que estava surpreso.
Um pedaço do bolo.
📚 Indicação de leitura: O que resta de nós, de Virginie Grimaldi (Gutenberg, 2024)
🎶 Indicação de música: Mon aventure, de Mickael Miro
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Me encantei por cada detalhe do texto! Também me sinto meio irrealizado já mais perto dos 40 e também estou buscando ardentemente uma vida menos cronicamente online, não tá tão fácil, mas tá bem mais limpo.
Adorei esse diálogo simples. E a indicação do livro: estou lendo ☺️