Cabelo
Uma crônica
Reduzi o passo enquanto ia chegando perto da barbearia. Discretamente, como quem olha ao redor por mero acaso, sondei o interior do salão e estava vazio, ou melhor, sem clientes, porque havia dois membros da equipe a postos para acolher quem chegasse. Eles conversavam alegremente, com sorriso largo quando entrei. Murmurei uma boa tarde enquanto procurava o cartaz indicando o preço, mas não encontrei. “Quanto é o corte?”, tive que perguntar. Tinha vergonha de parecer que eu queria barganhar um corte de cabelo. “Quarenta e cinco”, o que parecia mais velho entre os dois me respondeu. “Senta aí”, o outro emendou, quase ensaiado, como se executasse um plano de impedir desistências.
Obedeci.
O mais novo me vestiu com a capa assim que me sentei, enquanto o outro me entregava um catálogo. Estranhei. Ele percebeu a incógnita se formando; são sagazes em tudo que envolve a cabeça pelo jeito.
“Pra você escolher o corte”, disse. “Ah, eu sempre cortei do mesmo jeito”, respondi. “Mas de repente quer mudar”, agora era o outro quem dizia. Será que fazem tudo em dupla? Foi a pergunta que me ocorreu, mas depois fui pego por outra. E se eu mudasse? Um corte novo poderia me oferecer uma personalidade inédita.
Folheei o catálogo pensando que era fácil experimentar cortes diferentes para uma revista, com a iluminação, a maquiagem, o preparo, a técnica, tudo atuando a favor da produção. Difícil era sustentar aquilo levantando às cinco da manhã, pegando ônibus, trânsito, se estressando. Aí o único caminho possível parecia ser a máquina dois mesmo.
O homem mais velho cansou e voltou à poltrona onde estava quando cheguei, enquanto o colega se ocupou da minha indecisão.
“Eu posso...?”, ele lançou para mim, dando a entender que ia ofertar sugestões. Que mania essa de querer vender coisas diferentes pra gente. O meu objetivo era tão simples: entrar, sentar, (quase) raspar, pagar e partir. Por que tinham que complicar?
Mas por algum motivo eu não declinei da oferta. Deixei-o me apontar em uma, duas, três páginas o corte que ficaria ótimo num rosto ovalado como o meu. Ovalado? Achei que o meu rosto era redondo mesmo, mas ele ia mostrando o porquê das coisas, falando de repicados e degradês e eu balançando a cabeça como se entendesse tudo, mas alheio às imagens que, ao que tudo indicava, na cabeça dele estavam formadíssimas.
“Mas se você gostar de algo mais tradicional, nós temos esses aqui”, e apontou outros três tipos em páginas distintas.
“Não sei...”, estava tentado a pedir a máquina dois em tudo mesmo e é isso. Mas aí ele veio com mais história. “Sabe, a mudança é assim mesmo; é igual beber café sem açúcar ou beber vinho seco. É horrível quando você tenta, mas, para parecer chique, você finge que gostou até que se acostuma; aí gosta de verdade”. O colega, lá da poltrona, deu um tapa na própria perna e soltou uma risada, como se fosse piada. Eu fiquei sem entender o nexo, mas não disse nada. Ele tinha a minha cabeça nas mãos, afinal.
“Algum desses que eu mostrei você gostou mais?”. Ele era insistente.
“Tá, você acha que esse segundo aqui”, apontei, “não vai ficar parecendo que as minhas orelhas são gigantes?”.
Ele estacou. Olhou para o modelo do catálogo, olhou para mim, comprimindo os olhos e movendo as mãos como se me medisse. Nessa hora a minha vontade era levantar e sair bradando um deixa pra lá, nem tá tão grande assim. Mas não o fiz. Fiquei lá sendo analisado.
O outro, no fundo, ligou a TV. O som estava alto. Ao contrário do ruído baixinho que estava acostumado a ouvir nesses lugares, escutei a previsão do tempo – ia chover no final de semana – e que a França estava enfrentando um cenário político desfavorável para o presidente atual.
“Vai ficar ótimo, e nem vai dar trabalho pra você. É levantar de manhã, passar a mão pro lado que quiser e tá pronto”, o que me atendia sentenciou.
“Tá, pode ser”, concordei.
A movimentação dele na minha cabeça, o vaivém ritmado da tesoura, dos pentes da máquina, da lâmina me causou o efeito que eu adorava, mas detestava: a sonolência. Eu comecei a querer cochilar como se recebesse uma sequência de cafunés. Que vergonha. O que iriam pensar? Cocei o olho na tentativa de me despertar. Funcionou um pouco. Aproveitei o movimento pra sondar se a expressão do barbeiro me revelava algum julgamento. Ele parceria absorto, entregue que estava à própria arte. Relaxei aliviado.
O corte durou quase meia hora para ser concluído. Pouco antes de terminar, o barbeiro virou a minha cadeira, de modo que não pude acompanhar a finalização pelo espelho.
“Vamos lavar”.
“Não precisa, moro perto”.
“Só lavando pra eu te mostrar o resultado completo”.
“Tudo bem”.
Eu nunca gostei desses lavatórios, ficar com a cabeça pendida, com aquela água invadindo tudo e escorrendo pelo pescoço, pinicando até, mesmo com a toalhinha que colocavam para tentar drená-la. Mais um teste de resistência.
Quando acabou, ele secou com a toalha, secou com o secador e só quando estava satisfeito com as pinceladas finais é que me deixou olhar no espelho.
“E então, o que achou?”
Ele todo um corpo de expectativa.
O corte tinha ficado incrível. Mas tinha uma coisa: ainda era eu.
📚 Indicação de leitura: A amiga maldita, de Beatrice Salvioni (Intrínseca, 2024)
🎶 Indicação de música: On m’a dit, de Coline Rio
Se você gostou dessa crônica, considere conhecer os Meus livros.
Gosta de ouvir histórias? Que tal conhecer o meu Sarau Solo?




Adorei como você transforma um corte de cabelo em um espelho da vida, Márcio. Esse quase gesto de mudar, mas sem deixar de ser quem é. Fiquei pensando no quanto a gente ensaia mudanças só pra confirmar que continua o mesmo.
Linda crônica. Formidável. Tenho tentado chegar a esse nível há semanas, quiçá meses. Parabéns.