Dedos
Um conto
A última hora do meu trabalho foi mais tranquila do que o habitual. Eu tinha conseguido antecipar uma lista gigantesca de tarefas muito rapidamente, não porque eu fosse o mais eficiente do setor, longe disso; mas porque tinha feito tudo na base do ‘copia e cola’ do ano anterior. Sabia que era um risco. Subitamente eu vislumbrei a cena do supervisor chamando o meu nome do início do expediente seguinte e dando a notícia da minha demissão, ou do meu desligamento, como Afonso certamente preferiria tratar. Isso me atormentou por alguns minutos, mas depois passou. Seguiria sendo algo desesperador, mas acho que era menos ruim do que querer deixar esse trabalho imediatamente e não poder.
Então só deixei a hora de ir para casa chegar e, quase como de costume, optei por andar pelo centro antes de ir para casa. Ao invés de subir a José Eusébio, virar na Angélica, passar pela galeria e depois ir para o metrô, resolvi fazer o caminho contrário e desci a primeira rua. Fui recortando Higienópolis até chegar na Vila Buarque e depois na Santa Cecília. Por lá, ainda tinham vários anúncios de quartos e quitinetes para rapazes. Chamava atenção também a propaganda ostensiva das videntes, querendo trazer o amor de todo mundo de volta; outros tantos oferecendo dinheiro; isso eu queria, se não fosse preciso pagar depois.
Apesar de trabalhar o dia todo sentado, eu estava cansado. Queria encontrar um lugar tranquilo – e seguro, especialmente seguro – para me refugiar por uma ou duas horas. Não faltavam padarias e bares pela região, mas ir a qualquer um desses exigiria que eu desembolsasse pelo menos o valor de uma garrafa d’água superfaturada e ganhasse olhares repreendedores. Não valeria a pena. Girei o meu corpo à procura e entrei no lugar menos óbvio: a igreja.
Uma coisa que eu sempre gostei de observar nas igrejas onde já entrei é o teto, porque todos eles parecem emular o céu, com a sua suntuosidade, as paredes ricamente decoradas a perder de vista, elevando nosso olhar até uma abóbada ridiculamente inalcançável. Eu sempre pensei em como essa forma de construção podia ser tão paradoxal: era um lugar para nos colocar diante da figura divina, mas arquitetada de tal modo que nunca estamos próximos de verdade. Os limites estão por toda parte.
Fazia um tempo considerável que eu não entrava numa igreja. Logo que deixei o mundo de fora atrás de mim, fui invadido pela luminosidade bruxuleante das velas acesas por toda parte. Os bancos estavam quase todos vazios, com apenas uma ou outra pessoa sentada ou prostrada em oração – ao menos era isso que se imaginaria que elas estavam fazendo. Por outro lado, poderiam apenas estar matando o tempo, como eu.
Escolhi uma fileira lateral, completamente vazia, e me sentei. Eu conhecia os rituais da Igreja Católica, porque eu tinha feito catequese e até me crismado, mas agora já não parecia fazer mais sentido repeti-los; passei pelo corredor central sem dirigir ao altar o sinal da cruz; quase uma afronta.
Ao mesmo tempo em que eu evitava seguir os rituais, ficava constrangido de agir naturalmente; reprimi a vontade de usar o meu celular, estava sentado completamente ereto, a ponto de dar orgulho à saúde ocupacional do meu trabalho. De alguma maneira, estava embebido pela aura misteriosa da igreja, e talvez seja exatamente por isso que toda aquela atmosfera era como era. Lembrei-me do livro “O jogo do anjo” que, por muito tempo, foi o meu favorito, e como o Zafón criou uma história com o diabo apresentando-se como o anjo que fora, pedia ao protagonista que criasse uma religião, não sobre ele, mas ao redor dele. Tudo era uma construção para a nossa mente acreditar e o nosso corpo sentir.
Fui tirado dessa divagação pelo barulho do sino anunciando as seis e meia. Pouco a pouco, os bancos ao meu redor foram sendo ocupados e só então me dei conta de que ia ter missa. Eu podia ficar, bastava me levantar e voltar a me sentar na hora certa, erguer os braços se alguma música mais alegrinha e ritmada fosse tocada e facilmente poderia me perder entre os fiéis.
Mas não.
Saí da igreja sorrateiramente e voltei a caminhar, dessa vez em direção à São João. A noite já tinha começado a cair, mas ainda havia algum movimento, então entendi que era possível caminhar pela avenida sem me sentir tão inseguro; havia uma parte da área central que estava repleto de barracas improvisadas, uma superlotação de pobreza e drogadição. Subi a passos firmes até chegar próximo da estação Marechal Deodoro e estaquei por lá ali mesmo. Acabei me recostando junto à parede quase à entrada do metrô, porque dava para grudar a bunda e descansar as pernas.
Peguei o celular rapidamente, dei uma fuçada nas redes sociais, mas nada prendeu a minha atenção. Sem ter outra ideia em mente, fiquei apenas observando a movimentação na rua. O vaivém das pessoas parecia acompanhar o ritmo do próprio tráfego, um mundaréu de pernas a cada sinal verde do semáforo, substituído por um mundaréu de rodas. Comecei a me sentir ligeiramente incomodado de ficar ali parado do jeito que estava, pela impressão que pudesse estar causando e uma pitada de medo por saber que a região não ficava lá das mais seguras quando a noite ia caindo. Decidi voltar a andar e fui descendo, em direção à Francisco Matarazzo.
Fui forçado a parar na marquise de um prédio porque começou a chover. Embora fina, estava gelada e eu não queria chegar encharcado em casa – especialmente porque a minha cota de roupas da semana era meio que contada e se eu tivesse que trocar mais vezes do que o previsto, talvez fosse preciso aparecer no trabalho com alguma camiseta esgarçada ou alguma calça furada, o que chamaria para mim uma atenção que eu não gostaria de ter.
A intensidade da chuva cresceu rápido, mas passou no mesmo ritmo. Eu já estava me preparando para retomar a minha caminhada, quando uma cena me deteve.
Ele saiu do prédio com cautela, esticando levemente um dos braços em direção ao vazio, provavelmente para checar se ainda chovia. Tendo sentido o tempo seco, ganhou a rua e deu apenas alguns passos até alcançar a esquina; tirou do bolso um maço de cigarros, levando um à boca, depois o isqueiro, acendeu, e a maneira como deu a primeira tragada e deixou escapar a primeira nuvem de fumaça me deixou sem ar.
Contemplei-o demorada e descaradamente, como um aluno de artes visuais que estuda o modelo antes de reproduzi-lo na tela; notei cada traço do rosto, as linhas do pescoço, o desenho da barba, o leve enrugar entre os olhos e então os dedos.
Eu pensava que era a forma como ele segurava o cigarro o motivo de o meu olhar ficar tão detidamente preso, quase hipnotizado. Eu me embebia na forma como o indicador e o dedo médio eram levados à altura da boca para serem baixados instantes depois; ou como o indicador dava uma, duas, três leves batidinhas para permitir que as cinzas se desprendessem. Era um balé sensual. Mas os gestos em si, eu sei agora, eram mero coadjuvantes. O que eu me atrevia a gostar mesmo eram os dedos.
Os dedos dele tinham uma forma peculiar, pareciam rígidos e macios ao mesmo tempo, com os ossinhos se sobressaindo à finura da carne, pequenas lombadas formando um vaivém, como se criassem vales onde o cigarro se alojava. Ou a pele de alguém, que poderia ser a minha, que eu queria que fosse a minha. Mas não seria.
Eu não teria coragem suficiente para abordá-lo, primeiro porque o nosso olhar nunca havia se cruzado, aliás, esse é mais um dos aspectos que o tornavam tão tentador para mim. Sua expressão estava sempre centrada, não apático nem estático; a forma como ele aparentava fitar o vazio como se o preenchesse com suas próprias impressões misteriosas me seduzia, porque eu gostaria de ser parte dessa atmosfera tão particular.
Em segundo lugar, o que eu poderia dizer? Abordá-lo assim sem mais nem menos e atrapalhar talvez o único instante que ele tenha de sossego em meio à rotina? Não seria capaz disso.
Tão distante em sua própria contemplação, ele não notou que era observado, ou melhor, que era consumido pelo meu olhar – ou seria capaz de tamanha desfaçatez?
O tempo passou na cadência do cigarro. Conformado, resolvi dar meia volta e retomar o meu caminho. Então ouvi um chamado.
“Ei!”
Virei e o vi me encarando.
“O que tá rolando?”, ele perguntou.
Gelei.
“Nada. Nada, não, eu só...”
“Então é melhor circular”.
Obedeci. Mas talvez amanhã eu volte.
📚 Indicação de leitura: O jogo do anjo, de Carloz Ruiz Zafón (Suma, 2008)
🎶 Indicação de música: Dans ma rue, de Édith Piaf
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A dimensão que seus textos tem são incríveis. A sutileza dos detalhes…
Teu texto tem aquela melancolia boa de quem transforma a cidade em cenário interno. Gostei especialmente de como o desejo aparece quase sem querer, nas entrelinhas, como se o narrador estivesse mais perdido em si do que nas ruas. E esse final - meio anticlimático, meio dolorido - funciona tão bem. Fica um silêncio depois. Um eco. Gostei, Marcio.