Dono
Uma fábula
Quatorze horas e parecia noite. Pesadas nuvens cinza pairavam no céu, sustentadas sabe-se lá por qual fio invisível. O pé direito de toda uma cidade reduzido à metade. Parecia tão próximo.
Era bonita essa alusão, pensou Samira. Mas funcionaria melhor para humanos, não para ela, que era uma gata. A ela restava espichar o pescoço, projetando o focinho e ver a que distância cheirava o perigo.
Não parecia estar muito distante, mas ela ainda tinha algum tempo. Permitiu-se perder mais alguns segundos num alongamento duplo: primeiro esticando as patas dianteiras e elevando a parte traseira toda; depois esticando as perninhas para trás, cada uma a seu tempo.
Estava com fome; tinha conseguido pouca coisa na exploração da manhã e depois o sono a consumiu inteira, tão intensamente que se enrolou na primeira tubulação que viu pela frente.
Mas o sono foi atarantado. Estava perto de uma avenida e o barulho das pessoas a colocou bem mais alerta do que o esperado. Quando a noite roubou o holofote do dia, aí que despertou de vez.
Samira pôs-se a caminhar apressadinha. Impunha certa velocidade nos passinhos, mas sem correr demais. Quase trotava.
Queria encontrar um lugar alto, coberto, seguro e o mais silencioso possível para se proteger da chuva que era anunciada. No caminho, notou um cachorro preso na coleira, que caminhava ao lado do dono. Algo em Samira, um instinto provocativo, quase se apoderou dela. Queria passar pertinho do animal, quase como se se esfregasse na coisa canina e sussurrar: por que se resigna assim, tolinho? Nem sair correndo você pode. Fica à mercê do que fazem de você?
O que será que ele responderia? Um ganido que daria pena, um latido de quem não se incomoda ou um rosnar exigindo distância? Sem saber da resposta, ela engoliu a curiosidade tal como uma bola de pelo e seguiu jornada.
Saltou um muro chapiscado; parecia fácil, porque ela era jeitosa, mas doía um pouco, aquelas pontas de cimento roçando a almofada da patinha. Acabou soltando um miado. Olhou correndo para o lado; se o cachorro notasse, teria que dizer que era protesto, não dor. Mas o bicho já ia longe, guiado pelo dono.
Do outro lado do muro, Samira viu que tinha mato e gostou. Era fofinho e amorteceria a aterrissagem. Saltou.
A grama estava encharcada. A gata ficou indignada. Ficou com o pelo todo molhado na parte de baixo do corpinho esguio, tudo porque um humano aleatório achou que era prudente tacar água no quintal mesmo com chuva iminente.
A gatinha chacoalhou as patinhas e, mesmo sem tempo, teve que parar e lavar-se com algumas lambidas. Mas o banho não programado foi interrompido pelo início da chuva. Ela sentiu uma gota, bem na pontinha da orelha, e mais outra, e pôs-se a correr; dessa vez, sem pensar em poses ou nas impressões que pudesse causar. Chegou diante de uma casa e, felizmente, a porta da garagem não se fechava de todo. Era um espacinho pequeno, mas ela era uma gata. Primeiro meteu o focinho para avaliar o espaço e, sem demora, espremeu-se pela abertura e entrou.
A garagem não era muito grande, nem para Samira. Ao menos não do tamanho das garagens onde ela já se infiltrara em missões passadas. Aliás, era assim que ela encarava toda situação em que precisava de apoio humano para ser abrigada. Não queria se limitar a um espaço contido ou aos anseios de outra espécie. Ela não era como diversos amigos que sucumbiram, nem como seus irmãos, que os quatro se foram para essa vida.
Samira gostava de ser senhora de si. Mas havia ocasiões que demandavam um pouco de teatro. Ela costumava se sair bem. Bastava chegar subitamente e deixar-se ser notada. Mas jamais tocada, não à primeira vista.
Foi o que ela fez.
Arrastou-se da garagem para a porta que levava para a cozinha. Já ali uma grata surpresa: farelos de pão por todo o piso. Samira cheirou, não gostou muito do que sentiu, mas a fome gritou mais alto. Ao terminar a parca refeição, sentiu sede. Sem pensar duas vezes, saltou na pia e bebericou as gotinhas que pingavam da torneira e depois lambeu a pocinha nas bordas do mármore. Preferia, sem dúvida, que tivesse um potinho, mas a vida que escolhera nem sempre era dada a luxos dessa natureza.
Já ia descer quando algo não programado aconteceu.
“Mãe, um gatinho!!!”. Era um menino que, ao ver Samira, não conteve a emoção e gritava estridente. “Aaaah, que lindo. Eu quero ficar com ele. Mããããããe, vem ver. Eu posso ficar com ele? Por favor, eu quero muito!”
A essa altura, Samira ficou desnorteada. Ela detestava ser pega de surpresa. Sobrava pouco tempo para agir de forma pensada e ela não se sentia bem com improvisos. E ainda tinha a raiva de ser confundida com um macho e com um bichano que precisava ter dono. Ela ficou enfurecida. Queria esbravejar pro garoto.
Mas, ao mesmo tempo, ficou com pena, coitado. Pela aparência, devia ser daquelas crianças sozinhas, que passam a infância numa crueza que nem vidas inventadas são capazes de fazer magia.
A mãe acudiu ao chamado do filho minutos depois. Veio agitada. Samira achou mais prudente se esconder entre as pernas da mesa, afinal, não sabia que tipos teria que enfrentar. A mãe agachou e viu a bichinha encolhida. Teve pena. “Pega um potinho e põe leite pra ele, filho. Assim ele fica menos assustado”. Samira gostou. Nada mal.
O menino obedeceu. Empurrou o potinho o mais próximo que conseguiu por entre os pés da mesa, e estacou.
Assim não, né?, pensou Samira.
“Não fica em cima dele, filho. Deixa ele chegar aos poucos”, aconselhou a mãe, como que antenada.
Gostei dela, pensou Samira, e de fato foi se achegando ao potinho, tão logo o menino se afastou.
O leite estava um pouco gelado, mas ainda assim, delicioso. Samira se lembrou de uma casa onde havia entrado na estação passada em que se recusaram a dar leite. De bebida, só lhe serviram água. E ainda escutou a dona da casa profetizar as palavras de um veterinário de que o leite da vaca fazia mal. Samira ficou com tanta raiva; queria gritar: então por que você bebe, mas estava com mais sede do que vontade de brigar.
Fartou-se com o leite e já ia buscar algum lugar mais seguro para cochilar quando ouviu que a mãe do menino propunha ir comprar um pouco de ração quando a chuva amenizasse. Samira amou a ideia. Então resolveu ser grata. Saiu sorrateiramente e deixou-se passar por entre as pernas do menino. Ele foi à loucura. Fez o mesmo com a mãe. A mulher também se sentiu sortuda.
Samira até pensou que dava mesmo para se acostumar com uma vida assim, com o humano se contentando com tão pouco. Até dava. Mas ela ia partir assim que comesse a ração prometida.
📚 Indicação de leitura: A elegância do ouriço, de Muriel Barbery (Companhia das Letras, 2008)
🎶 Indicação de música: Je ne veux pas travailler, de Pink Martini
🎥 Indicação de filme: Flow (2024)
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Mais uma Vez adorei a escrita.
Fico sempre impressionada pela facilidade da criação dos personagens e como me sinto na cena/na vivência do personagem - até um gato rs ❤️👏🏻😅
Nem sempre a alegria de um animalzinho está em ter um dono, neh? Parabéns pela forma como vc narra com perfeição os hábitos e trejeitos dos gatos! Boa observação da Lizi!