Entidade
Um conto
No final de semana, eu fui visitar a minha mãe. Eu sei que deveria vê-la mais vezes, afinal, morávamos na mesma cidade, ainda que a distância entre a zona norte e o extremo leste fosse marcado por tantos quilômetros que era como se estivéssemos em municípios totalmente distintos.
Nos primeiros meses eu me sentia um pouco culpado disso, como se a tivesse abandonado à própria sorte. Um filho pródigo incompleto, que prometia voltar, mas não o fazia. Procurava justificativas para abrasar o meu próprio sentimento: que precisava economizar, que ela tinha as irmãs para ajudá-la no que precisasse, que eu passaria mais tempo fora de casa no trajeto de ida e volta do trabalho e no turno, que a gente brigava muito quando estava todos os dias juntos. E tudo isso era verdade. Mas a verdade mesmo é que eu queria resetar a minha vida, quase às configurações de fábrica; era uma forma de construir uma história completamente nova para mim. Ainda não tinha conseguido ajustar tudo, mas pelo menos era um caminho.
Entre espera, ônibus, metrô, mais espera e mais ônibus e ainda um pouco de caminhada, demorei quase três horas para chegar. A casa era uma das mais modestas da rua, que há algum tempo tinha ganhado uma presença quase maciça de sobrados – que eu passei a considerar como a forma de a periferia imitar a verticalização do centro e áreas nobres. Da calçada, erguia-se um muro baixo todo chapiscado, sem pintura, o cimento descuidado, em picos maiores do que deveriam ser, quase como pequenas lanças endurecidas. No centro, um portãozinho tão enferrujado que até poderia ser chamado de bronze. Heroico, ele ainda podia parar em pé. Essa fortaleza guardava o que deveria ser um jardim ou uma pequena hortinha, mas estava puro mato, erva daninha para todo lado e os excrementos de sabe-se lá quantos cachorros, gatos, passarinhos e espécies outras de animais que acharam ali um lugar conveniente e prático de se aliviar. Eu poderia pensar na tristeza de ver o lugar onde eu brincava quando criança, assim tão judiado, mas para quê, me encher de nostalgia só ia me entupir de tristeza e eu já estava à beira de me engasgar. Fingi que não me importava – ou talvez dolorosamente eu não me importasse mesmo – e cheguei à porta.
Parte do vidro estava quebrado. Não chegava a revelar o que acontecia dentro da casa, mas estava ali, mais uma coisa que ruía; ao menos havia alguma coerência. Girei o trinco e entrei. O sutil movimento da fresta da porta aberta foi suficiente para levantar um punhado de poeira, tangível e visível com a luz do sol que entrou comigo. Chamei pela minha mãe e não tive resposta, o que era estranho, porque, mesmo quando estava nos dias mais letárgicos, ela ainda respondia, só não sei se conscientemente ou se por um instinto materno que reconhece o som da prole.
Chamei uma vez mais, entrando no quarto que era meu, e depois no dela. Nada. Ela não estava em casa. Se eu não conhecesse a minha mãe dos últimos anos, eu poderia até deixar para lá, me sentar e esperá-la fazendo algo sem muita utilidade, mas eu sabia que o estado dela não vinha sendo do tipo que sai tranquilamente no fim da manhã para fofocar na casa de algum vizinho ou qualquer outro costume do tipo; nem ao mercado ela ia mais, há muito tempo. Mensalmente, ela recebia em casa uma cesta básica da assistência social, e era isso.
Saquei o celular para ligar para a minha tia e ver se tinha notícias da minha mãe, quando notei um par de olhos brilhantes dentro do banheiro, o único cômodo que eu tinha esquecido de procurar; não tinha atinado porque estava escuro, mesmo com a porta quase toda escancarada, de modo que eu a teria visto só de passar. Essa constatação fez eu estranhar ainda mais.
“Mãe...?”, chamei e, como resposta, reparei que os olhos brilhantes parecendo suspensos no ar se moveram sutilmente num movimento que sugeria concordância. Eu então me aproximei, abri toda a porta e acendi a luz. Um grito agudo me ocorreu, mas ficou preso na garganta, fazendo os meus próprios olhos se arregalarem tal qual a entidade que eu agora tinha diante de mim. O que tinha sobrado da minha mãe.
Era difícil encará-la naquele estado. Difícil e doloroso. Qualquer que fosse o mecanismo que fazia a minha cabeça trabalhar naquele instante, estava efusivo, resgatando memórias que eu nem mais sabia existir guardadas em algum lugar. Eram cenas da minha mãe me pegando no berço ou me colocando de volta nele; sons da voz que ela fazia para falar comigo, como se eu fosse aprender uma língua só pela entonação trocada; o som irritante do garfo raspando no fundo do prato enquanto ela cortava a carne em pedaços pequenos o bastante para que eu não morresse engasgado ao comer afobado; o cheiro do lustra móveis que ela usava mesmo naqueles que eram de tudo menos madeira; o jeito que ela parecia me espancar só com os olhos quando eu pedia algo aleatório que ela não podia comprar e depois pensava que conseguia disfarçar a decepção de não ser o bastante. Mas era. Sempre foi. Porque o que nos faltava era só a moeda de troca para ter o que queríamos ter, o que julgávamos merecer. Mas aí o acidente aconteceu, o meu pai se foi e, desde então, essa moeda passou a ter a maior importância.
Estiquei a mão, na esperança de que ela compreendesse a minha tentativa de aproximação e cedesse a essa espécie mínima de afeto que há tanto tempo não trocávamos, mas ela não saiu do lugar. Os olhos saltados olhavam na minha direção, mas pareciam me atravessar. Fiquei com medo de que ela pudesse ver dentro de mim e não gostasse do que eu continha. Ou será que ela seria capaz de ver partes de si? Éramos tão distintos um do outro agora.
Quando ela falou, a voz era fraca e distante.
“Água”, pediu.
Eu rapidamente fui até a cozinha; chafurdei em meio ao armário todo desmantelado e na louça que se acumulava na pia na expectativa de encontrar algum copo limpo, mas todos estavam sujos demais. Peguei então a tampa da garrafa de café, que parecia ainda ter alguma condição, mas da torneira não saiu uma gota d’água. Tentei a do tanque, da parte de fora, que servia de lavanderia e nada também. Voltei ao banheiro com a tampa para tentar a torneira de lá. Seca. Minha mãe tinha retornado à posição anterior, encolhida entre a pia e o vaso sanitário.
“Há quanto tempo você está sem água, mãe?”, perguntei num tom quase bravo. Mas não era raiva, era uma mistura de preocupação com desespero, porque das poucas vezes que a gente se falava, ela nunca se queixou de nada desse tipo. Eu sempre perguntava se precisava de alguma coisa e a resposta era sempre a mesma: que a minha tia já tinha feito isso e aquilo, e ela já tinha a cesta do mês.
Fiquei sem resposta. Não sei se porque ela não queria falar do assunto ou se não conseguia. Pedi que ela me esperasse só alguns minutos, que eu ia até o mercadinho na esquina e ia comprar água e algumas coisas. Ela segurou o meu braço com uma força tão bruta que me assustou.
“Já volto”, insisti.
Antes que ela pudesse fazer qualquer movimento, escutei o barulho de uma ambulância, cada vez mais perto. Corri até a porta da sala e vi que o veículo estava sendo estacionado em frente ao portão da minha mãe. De dentro dele, saíram dois profissionais paramentados como num filme de tragédia sanitária e a minha tia.
Ela era tão parecida com a minha mãe.
Minha tia olhou no fundo dos meus olhos, como se só precisasse disso para me revelar tudo do mundo.
“Eu sinto tanto”, foi só o que ela disse, me enganchando num abraço.
📚 Indicação de leitura: A cachorra, de Pilar Quintana (Intrínseca, 2020)
🎶 Indicação de música: Rester seule, de Louane
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Fooi! Fiquei apreensivaa! Mas, li os comentários e aliviada que esse relato tenha sido ficção! Tu prende demais a gente!! Parabéeens, mais uma vezz!! Já sou fãaa
Estes textos maravilhosos do Marcio heim? Acredito que todos se identificam né? Quem não tem algum parente velhinho, que não damos a atenção devida, que pode estar passando por algo como aqui descrito no texto... mas eu considero que é isso, texto bom mexe com a gente mesmo. E temos que agradecer aos escritos que nos chegam e nos sacodem