Fofoca
Uma crônica
A sacolinha frágil do supermercado já tinha feito uma grande marca avermelhada no braço de Margarida. Ela tinha começado a carregar segurando firme com todos os dedos, mas as falanges começaram a doer, a ponta dos dedos a arroxear, então ela mudou a posição. Mas agora aquele nem era o incômodo principal. Ela temia que a sacolinha não fosse aguentar até chegar em casa. Ela se viu correndo atrás de laranjas, maçãs e cebolas e ficou apavorada pensando nos ovos. E o leite! Ai, que desespero! Justo no dia em que ela tinha comprado o de saquinho, porque estava mais barato.
Margarida não era dada a reflexões e conhecimentos de física, mas pensou que correr poderia forçar ainda mais a sacola e acelerar a arrebentação. Optou, portanto, a dar passos mais abertos, mas lentos. O plano pareceu ter funcionado. Ela estava a menos de um quarteirão de casa. Três casas separavam-na da linha de chegada, até que um obstáculo apareceu.
“Menina, você sumiu!”
A voz era conhecida: Lucilene, uma das vizinhas. A relação que Margarida mantinha com ela variava conforme a condução nos momentos de encontro. Quem as visse podia tê-las como amigas inseparáveis, colegas de bate-papo, puramente vizinhas ou até parentes. Essa tinta cabia ao artista que captasse a cena.
Dadas as condições em que se encontrava, Margarida queria simplesmente despachá-la com oizinho rápido, uma desculpa de panela no fogão ou roupa na máquina, mas Lucilene sabia engajar.
“Não sei se você tá sabendo...”, a vizinha soltou. Pronto. Margarida precisou parar para ouvir. Era importante tomar conhecimento das coisas, porque um mundo às cegas é complicado.
Descansou as sacolas no meio-fio. Uma das alças, fininha por estar esticada ao limite, acabou caindo de um jeito mal ajambrado. O resultado foi uma cebola escapando pela abertura e rolando até o pé de Lucilene. Esta recuperou o legume, estendeu-o à Margarida, que o pegou e ficou segurando quase como um porta-moedas. No rosto, uma expressão ávida por ter a curiosidade saciada.
À Lucilene o comportamento de Margarida não passou despercebido. E ela adorou a sensação de ser a detentora de uma novidade da qual a companheira se mantinha apartada. Ela ia compartilhar, é claro, mas ainda ficou alguns minutos saboreando a ignorância alheia.
Margarida não aguentou o suspense. “Desembucha, mulher!”
“Diz que a Catarina largou o Geraldo”, começou, uma mão na cintura e a outra tapando o canto da boca, como se se protegesse de alguém que estivesse escondido tentando fazer leitura labial. “Ela ficou sabendo que ele tava se engraçando com a menina da Tânia”.
“Misericórdia! Mas a menina deve ter o quê, uns dezessete ainda!”, a exclamação foi de Margarida que, pensativa, pareceu ter esquecido que segurava a cebola e tocou o rosto com ela. O cheiro a assustou e ela atirou a bolota para o lado. A cebola quase voltou para dentro da sacola, mas deu mais um giro e foi a primeira a completar a volta para casa, parando praticando no portão de Margarida. Mas ela nem notou.
“Que dezessete nada! É de maior já. Formou ano passado no colégio. Eu sei porque minha sobrinha foi professora dela”.
“Ah, mas mesmo assim. Novinha ainda. O Geraldo é um sem-vergonha. Eu sempre falei. Mas você sabe que a Catarina até ameaçou virar a cara pra mim por falar dele. Aí deu no que deu. Ela devia é me pedir desculpa”.
“Ai, menina, mas coitada, né? Outro dia tava falando que queria reformar, comprar cama e guarda-roupa novos. Olha bem”.
“Mas como que foi isso?”
“A reforma? Ela não chegou a fazer”.
“Não, boba; que ela ficou sabendo...”
“Ah! Fofoca, né? Pode isso? Aqui no bairro é uma coisa”.
“Vou te contar, viu? Nada escapa da boca do povo, não é? Mas quem espalhou isso?”
“O cunhado”.
“Dela ou dele?”
“Dela, uai. Ela não tem irmão. Foi o irmão do Geraldo, pode isso? Diz que ele queria namorar a filha da Tânia e aí a menina falou que não queria porque já tava compromissada”.
“Então já devia ter tempo isso, porque o irmão do Geraldo foi embora tem quase um ano já, não tem?”
“Pois é. Ele teve aí nas férias e parece que foi tentar outra vez. Homem é uma sarna, né?”
“Se é!”
“Aí ficou esperando a menina sair do serviço, sem avisar nem nada, olha bem isso”.
“Mas e aí?”
“Aí que ele viu ela saindo do serviço e entrando num carro diferente. E ele foi atrás”.
“Ele seguiu a menina?”
“Seguiu! Pra irmã dele disse que tinha ficado preocupado com a menina e quis ver se ela ia ficar em segurança”.
“Olha que danado!”
“Um descarado, né? Mas não é pior que o outro. Porque foi aí que ele descobriu: viu que era o Geraldo quando ele parou pra entrar no motel”.
Margarida outra vez levou a mão à boca, mas tirou rapidamente, incomodada com o cheiro de cebola que ainda estava agarrado entre os dedos.
“Ele parou os dois?”
“Nada! Tirou foto e mandou pra Catarina na hora”.
“Menina, coitada!”
“Mas a Catarina bobeou, né?”
“Não, boba. Coitada da Tânia, que agora se isso espalha, vai morrer de vergonha da filha”.
“Ah, tem isso. Mas eu acho que ninguém sabe ainda. Eu mesma soube porque aconteceu de estar falando com a Catarina quando ela recebeu a foto. Informação na fonte. Quase caí pra trás!”
“E ela?”
“Ficou louca. Mandou um áudio pro Geraldo na hora, chamando ele de tudo que é nome”.
“Mentira!”
“Tô te falando. Mas, aqui, não comenta com ninguém não, porque você sabe, né?”
“Pode deixar! Comigo tá guardado. Mas pro Rogério não tem jeito de esconder, né?”
“Ah, sim. Eu também contei pro meu marido. Fora ele, pra Ana, da padaria, que é assim” – e esfregou os dois indicadores um no outro, lado a lado –, “com a Catarina, pra minha menina, que tá em São Paulo, e pra Sandra, manicure”.
“Que babado. Menina, o papo tá bom, mas preciso fazer almoço. E além do mais, já tô vendo a Dirce na janela. Bem capaz que daqui a pouco tá falando mal da gente, linguaruda do jeito que é”. Margarida riu e foi recuperar a sacola. Lucilene também soltou uma risadinha.
Com um aceno, cada uma voltou ao seu caminho. A Dirce, da janela, balançou a cabeça dando bom dia.
📚 Indicação de leitura: Eu não sei quem você é, de Penny Hancock (Dublinense, 2021)
🎶 Indicação de música: Heartbreaker, de Birdy
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Fofoca é poder instantâneo e volátil. Dura o instante que leva para contar.
Lembro de tanta coisa 😅🎶
Ah o Interior... 😅 rs