Leve
Uma crônica
Querido diário, ainda te chamam assim?
Estranho começar com uma pergunta para um amontoado de papel grampeado que não tem condições de responder. Mas se se presta a ser confidente é porque deve tolerar questionamentos que se tornam retóricos pela impossibilidade de interação.
Tá, eu sei. Tô divagando.
Eu te desenterrei hoje das profundezas da minha gaveta porque queria mergulhar nas memórias do que tinha escrito. Fosse senciente você teria percebido a sofreguidão com que te folheei; quase rasguei um pedaço seu, mas foi sem querer; não sou dada a essas violências, ou pelo menos eu acho que não. Já nem sei. E está aí a coisa toda. O espanto. O caos. O nó. A baderna. O diagnóstico. Como quiser chamar, eu já nem ligo.
Hoje eu saí de casa como sempre, à hora habitual, o sol começando a sair, a manhã com um escurinho ainda nos cantos, quase aquele efeito de vinheta. Cruzei as ruas de sempre, até as pessoas pelo caminho pareciam coincidir. Confirmei no trabalho a boa funcionária que sou, sempre pontual, permitindo que o dedão fosse lido na máquina que registra o ponto. Ocupei a mesma mesa, liguei o mesmo computador.
À primeira tentativa de abrir o e-mail, a internet falhou. Normal. Acontecia às vezes. Anormal foi a Julia vir até à minha mesa dizendo que eu precisava ajudá-la na conclusão de uma demanda, porque ela não tinha conseguido terminar e o prazo era até o fim do dia. A Julia, veja bem. A mesma que tinha caído nas graças das pessoas certas e ganhado uma promoção antes de todo mundo; a que parecia gostar de andar pelos corredores apressadíssima porque lotada de trabalho, mas que não saía dos corredores. Foda-se, eu pensei. E tudo bem, eu pensava coisas assim de vez em quando. A questão é que dessa vez eu também verbalizei. Ela arregalou os olhos que parecia que iam saltar e sair quicando feito bolinhas de borracha pelo escritório. Foi mal, Julia, eu não queria dizer isso, ensaiei, mas ela já tinha deixado a minha baia.
Quinze minutos e a internet nada de voltar. Comecei a jogar o joguinho do dinossauro no navegador. Descobri que era boa na corrida jurássica de obstáculos. Aí o celular apitou com uma mensagem no grupo. Era do Genésio, o supervisor da equipe. Ele avisou que o problema com a internet era externo e a previsão da operadora não era otimista. Coisa de umas oito horas para restabelecer.
A Julia reagiu com um emoji de choro. Que menina tonta, pensei. Melhor pra ela, porque ganha tempo. E pra mim também, que não vou precisar nada, embora já não precisasse. Eu, hein. O pensamento foi tão forte, que voltei no grupo pra ver se não tinha digitado. Ufa. Só falei pra dentro mesmo, como deveria ter sido.
Fomos dispensados. O Genésio disse que a gente tinha que fazer home-office. Não aguentei. A net de casa não serve quando a gente pede pra ficar por lá, como pode servir agora. Percebe o que fiz? Eu realmente digitei isso. Desse jeito. E enviei. No grupo do trabalho; com o Genésio.
Eu ia apagar correndo, mas a Julia já tinha reagido com um emoji de espanto e outros dois riram. Pensei: vou enviar um hahaha e vira humor. Não adiantou. Genésio me escreveu individualmente. Ele não costumava ser formal, nem sabia que podia, mas foi. Disse que, a despeito de integrar o grupo e interagir nele com equipamentos às minhas expensas, cumpria a observância da cordialidade, civilidade e demais virtudes exigidas nos manuais e códigos da nossa organização. Que diante do meu histórico ilibado, ele compreendia tratar-se de um episódio isolado de cunho recreativo e, diante disso, estava se limitando a uma advertência verbal. Eu poderia tirar aquela sexta de folga para me reequilibrar. Eu ri. Não me restou outra reação. Subitamente, apontei um dedo do meio pro celular, enquanto pegava minha bolsa. Ao me virar para ir para casa, dei de cara com Genésio contemplando a minha cena. Dessa vez, ele abriu mão do juridiquês. Não fode; vaza!
Não esperei nem um segundo a mais e saí do escritório.
Quando voltei a pôr os pés na rua, decidi que não ia para cada de imediato, já que afinal tinha ganhado um dia de folga, ia aproveitá-lo do jeito que bem me aprouvesse. Desliguei o celular e o joguei no fundo da bolsa.
O meu primeiro ponto de parada foi a biblioteca municipal. No mínimo quatorze anos separavam este dia do último que cruzei aquela porta. O número de estantes e a variedade de livros estavam maiores do que eu me lembrava. Escolhi um da Danielle Steel. Nossa, há quanto tempo não tinha contato com a escrita daquela mulher? Será que eu ainda ia gostar da narrativa ou ia achar um dramalhão sem sal?
A bibliotecária pediu a minha carteirinha ou o meu número de cadastro. Nossa, eu não sei, moça. Não venho aqui tem muito tempo. Quer fazer um novo? Aceitei. Ela inseriu os meus dados mais básicos e me passou o livro. Tem que devolver em até quinze dias, orientou. Eu olhei para capa e estranhei. Posso levar assim, sem proteção? Ela me encarou como quem não entendia. Na minha época colocavam uma capinha de jornal. Uau, na minha época, me senti jurássica como o bichinho do jogo do navegador. Ah! Nossa, não. Isso não é mais procedimento por aqui, ela explicou. Fiquei nostálgica. Agradeci e saí rumo à casa dos meus avós.
Eu costumava passar as tardes por lá, depois que voltava da escola. Queria recordar essa sensação. Minha avó me acolheu com estranheza – porque era dia útil e horário comercial – e alegria. Estava aguando as plantas do quintal. Perguntei se queria ajuda. Ela recusou. Quando entrou para fazer o almoço, eu me deitei na parte do quintal que já estava seca. Abri o livro e deixei a leitura me levar. Li quase dez capítulos. Se me perguntassem se a história era boa, não saberia responder. Mas foi uma delícia a sensação. Deixei o livro de lado e me pus a observar o céu. Acompanhei o movimento das nuvens se fazendo como os mais diversos animais e objetos. Divertido. Ia retomar a leitura quando a minha avó gritou que o almoço estava pronto.
Ajudei a arrumar a cozinha depois que comemos. Ela ouvia rádio enquanto fazia os serviços de casa. Eu também ouvia muito, lembrei. Tantas músicas que já não ouvia há tempos. Com tudo limpo, fomos ver novela. Eu sei que pareço repetitiva, mas há quanto tempo eu não via uma novela? Que delícia ficar nervosa por situações que nem existem, torcer por gente imaginária e ficar com raiva de vilões inventados. Quando me dei conta, a tarde já estava no fim. Despedi-me da minha avó e rumei para casa.
No caminho, o céu não estava mais azul, mas multicolorido, com faixas amarelas, laranja e rosa se cruzando. Uma pintura. Fiquei com vontade de andar de bicicleta. Eu gostava tanto. Eu não tinha uma, mas o meu tio, sim. Por sorte ele era nosso vizinho e me emprestou de pronto. Dei voltas e voltas em todo o bairro; cheguei até o início da rodovia, sendo acolhida pelas luzes da cidade que se preparavam para o turno da noite. Parei e pensei: será que eu consigo sem as mãos? Mudei a marcha, dei um impulso para ganhar velocidade. Tirei uma mão do guidão. Senti a bicicleta dar uma viradinha pra esquerda. Voltei a segurar com as duas mãos rapidamente. Mas eu precisava tentar. Eu sabia. Eu sempre soube. Respirei fundo. Pedalei com toda a agilidade que pude e soltei as duas mãos de uma só vez. Os braços estendidos no alto abraçando o mundo inteiro. O vento no rosto. A liberdade. A sutileza. Eu estava tão leve.
Depois vim pra você.
Minha pergunta, querido diário, é: como eu pude me desconhecer tanto?
📚 Indicação de leitura: Os cem anos de Lenni e Margot, de Marianne Cronin (Planeta, 2022)
🎶 Indicação de música: L’air de rien, de Margaux Avril
🎥 Indicação de filme: A delicadeza do amor (2011)
Se você gostou dessa crônica, considere conhecer os Meus livros.




Tenho desses surtos de sincericídios que descreve, e sempre me dou mal.
Que Deliciosa sensações e "lembranças"
A vontade de as vezes viver a vida que a antes tantas vezes pensei ser "tediosa"...
Parabéns por transformar em palavras 👏🏻👏🏻
❤️❤️❤️