Metrô
Uma crônica
O aviso sonoro tinha acabado de tocar quando as duas mulheres apertaram o passo e conseguiram entrar no vagão. Mas não saíram ilesas da ousadia. Lá de dentro, uma moça que observava a manobra balançou a cabeça em reprovação. Ela não foi a única: um trio de adolescentes olhou e trocou risinhos, como se a cena fosse virar uma espécie de piada interna do grupinho.
O operador da composição também se manifestou, de uma forma geral, com uma comunicação que serviria não apenas às duas, mas a todos dos outros vagões que tivessem feito ação semelhante. Em outras palavras, a qualquer um a quem a carapuça servisse.
Havia vários lugares vazios àquela hora, mas uma das mulheres notou que a bolsa da outra tinha ficado presa. Coitada, pensou. E foi ajudar. Que vergonha, a outra disse. Obrigada, completou quando conseguiu se desvencilhar da porta. As duas ocuparam lugares lado a lado.
Você sabe, né? Nessa cidade cada minuto que a gente ganha ajuda demais.
A outra meneou a cabeça numa concordância desmedida.
Eu falei isso hoje pro Carlos, meu irmão, você acredita? Ele tá lá em casa tem uma semana. Veio atrás de entrevista de emprego. Eu vivo falando: você tem que sair cedo de casa; evitar o horário de pico. Mas ele escuta? Claro que não.
Menina, é isso. E como que fica essa despesa a mais? Ele já tem previsão de arrumar alguma coisa?
Vou te contar. Eu tô achando que ele tá me enganando e passa o dia à toa. A pastinha de currículo parece da mesma grossura de quando ele chegou.
Vixi, olha, eu tinha um primo que era cheio dessas manias também. A sorte é que já mora em São Paulo. Se fosse pra acolher em casa, o Rogério me largava. E riu.
Cruz credo. Nem me fale uma coisa dessas, que lá em casa o homem não falou nada ainda, mas já percebi que tá fazendo mais cara feia do que o normal.
Olha, ruim com eles, pior sem eles, né não? Se eu tivesse condição, não ligava de ficar sozinha. Mas a gente acostuma, né boba?
É isso. A gente é tudo tonta hahaha. A minha irmã que é esperta. Deu o pé na bunda do marido dela, porque ele tava se engraçando com a Bete, da padaria.
Misericórdia, respondeu a outra. Mas posso falar? O trabalho tá me matando mais que essa história do meu irmão. Muita coisa pra fazer e tem uns encostados lá, que, olha. Se eu fosse a patroa já tinha mandado embora tem tempo.
Ah, mas é assim mesmo. Vai a gente querer fazer de doida e a coisa ia ser outra.
É isso.
O metrô recolheu poucas pessoas nas primeiras estações onde parou, mas quando chegou na Luz, os passageiros observaram a onda de gente que a plataforma ia cuspir para dentro do vagão assim que as portas fossem abertas. Um tsunami de gente.
As duas trocaram um olhar cúmplice de como quem diz ainda bem que a gente tá quietinha sentada aqui no canto.
A lotação era tanta que o rapaz que queria vender relógio sequer conseguiu prospectar cliente. Não sobrou espaço nem para ele descansar a sacola cheia no chão, de modo que ficou com ela suspensa, balançado, indo e vindo no rosto do coitado.
Uma das mulheres se compadeceu. Dá aqui, menino.
O rapaz olhou ressabiado.
Olha bem, menina, deve tá achando que eu vou roubar dele.
A outra deu um risinho de concordância com a companheira de viagem.
Tá de boa, valeu. Foi a resposta do vendedor acuado pela própria mercadoria.
Eu sinceramente não sei o que passa na cabeça dessa geração.
Tudo perdido mesmo. E olhou o celular.
Nossa, esqueci de responder pra minha cunhada que não ia na igreja hoje, agora tô sem rede e ela vai ficar me esperando.
Ah, ela não vai te matar por isso.
Hahaha se fosse a minha sogra mataria.
A minha era um amor, tadinha. E sofreu tanto no fim da vida. Era dor pra tudo que é lado, mas pelo menos tava em casa, com os filhos tudo perto.
Ah, menina, você fala isso e eu lembro do meu pai. Fez de tudo pela gente, o velhinho. A gente pequena e ele trabalha e trabalhava. E continuou mesmo com a gente grande.
Os olhos da mulher iam formando pocinhas de lágrima enquanto lembrava do pai.
A outra, comovida, não achava palavra. Procedeu com a tentativa de conforto que podia, dando tapinhas sutis na coxa da companheira, como se o gesto fosse um abraço curativo.
Mas a gente tem que seguir, né?
Tem. Tem mesmo. Se a gente para, fica doente também e aí pronto.
É isso mesmo.
O aviso sonoro do metrô anunciou a próxima estação. Outra repleta de conexões e, portanto, tão abarrotada quanto à anterior de iminentes passageiros.
Quer saber? Vou descer aqui e pego o ônibus. E agilizou a saída, com a companheira tendo que espremer a pernas para dar passagem.
Tchau, a que saía gritou. Qual seu nome?
E a porta do trem fechou para seguir viagem.
📚 Indicação de leitura: Pequenos incêndios por toda parte, de Celeste Ng (Intrínseca, 2018)
🎶 Indicação de música: Une dame d’un certain âge, de Saint André
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Deliciosas Conversas, de uma vida "sem tempo", ne? 🥲
Hahaha adorei, bem nosso cotidiano aqui em SP! 👏🏻👏🏻👏🏻