Sentido
Uma crônica
Ainda faltavam três pontos para descer quando Adélia começou a peregrinação para chegar à porta traseira do ônibus. Ela costumava rumar para o fundo assim que passava a catraca, mas naquele dia o cansaço era tão intenso que não resistiu a um lugar vazio que tinha encontrado na frente e se sentou.
Agora tinha que lidar com as consequências dessa escolha. Ela era educada, nunca deixava de pedir licença a quem encontrasse pelo caminho, mas dentro de um ônibus apinhado de gente, não havia nem espaço para a palavra ser mágica. Adélia foi se contorcendo como pôde, driblando bundas, peitos, braços e pernas. Uma suruba da volta para casa. Quando chegou à beira da porta e conseguiu descer, sentia-se exausta.
A caminhada até em casa era curta. Chegou em menos de cinco minutos.
Do portão, ela estranhou. A luz da sala estava acesa. Adélia não era dada a precipitações, então, o primeiro pensamento dela foi que a filha tivesse se esquecido de apagar antes de ir para a faculdade. Ariel estudava direito, mais porque tinha conquistado uma bolsa do que por vontade ou vocação. Aliás, é bom que se diga na lata, sem floreio: ela só entrou no curso porque ganhou a bolsa e a mãe celebrou tanto que a jovem não achou jeito de recusar.
Adélia confirmou que era mesmo a filha a causa de a lâmpada estar acesa, mas não por esquecimento; a jovem estava jogada no sofá, vestindo pijama e com o olhar perdido, enquanto com uma mão brincava com cachos do cabelo que lhe caíam sobre o colo.
“Oi, mãe”, ela cumprimentou tão logo Adélia abriu a porta.
“Ué, não teve aula hoje ou saiu mais cedo?”.
A moça não respondeu de imediato. A mãe não pareceu se importar com uma resposta em alguma medida tão desimportante e foi dar cabo do processo de chegada, que consistia em guardar a bolsa, descalçar os sapatos, beber um copo gigantesco de água gelada, fazer xixi e o que ela mais amava: desafivelar o sutiã.
Quando retornou à sala, Ariel não devia ter mexido um palmo sequer da posição anterior.
“O que está fazendo?”, sentou-se no sofá de dois lugares.
“Nada, pensando só”.
“Besteira, aposto”.
“Ai, mãe, claro que não”.
Adélia semicerrou os olhos, como que para provocar a cria, mas se Ariel percebeu, fez como se não notasse. A mãe fez menção de pegar o controle remoto.
“A internet caiu”, a filha contou. “Faz quase uma hora já”.
A instabilidade da conexão era outra coisa a que Adélia estava mais habituada, mas era o efeito colateral de contratar um provedor local do bairro, com um preço baixíssimo de mensalidade. O funcionamento da rede fazia jus ao investimento.
“Você tá aqui desse jeito esse tempo todo?”
“Como?”
“Assim jogada. Não era para estar na faculdade?”
“Eu não tô jogada, tô deitada”.
“Ai, é bem advogada mesmo, né? Grande diferença, para mim é tudo a mesma coisa”.
“Eu não sou advogada!”
“Mas vai ser”.
“Mãe...”, Ariel começou, e estacou.
“Ih... lá vem. O que foi que aconteceu?”
Ariel sentiu uma coisa esquisita, como se estivesse em pé na prancha de um pirata, numa cena bem lugar-comum de desenho animado. Como se não houvesse escapatória: era sair contida ou afogada.
“Eu tranquei a faculdade”, soltou, a voz agitada, completamente oposta à posição calma e relaxada que o corpo dela parecia expressar.
“Como assim?”, a mãe entendeu as palavras, mas não a mensagem, não sabia o que aquilo significava, mas não queria parecer desinteressada. Então emendou: “por que isso?”
“Eu não gosto de direito. Eu não consigo. Não me vejo uma advogada, fazendo nada do que eles fazem”, à medida que Ariel falava, o corpo ia reagindo, e ela foi emergindo do sofá, até ficar sentada, olhando diretamente para a mãe, tentando vasculhar o que ela sentia com a revelação. “Eu queria conseguir, e tava tentando demais, mas não consegui. Não é pra mim”.
Adélia em silêncio. Ela queria falar que era uma bobagem ou um absurdo. Mais do que isso, uma irresponsabilidade, como era possível ter uma faculdade de graça e não querer. Ela não conseguiu fazer; primeiro porque não tinha dinheiro, depois porque não tinha tempo; ainda mais tarde, não tinha os dois. Nunca era o suficiente. Mas a filha podia mudar de vida. E ela queria falar isso. Queria confrontar, arrastar a garota para um dia de trabalho com ela, apertada no mundaréu de gente do ônibus, depois na correria pra bater o ponto na hora certa, pra bater meta de tudo, pra comer a comida toma espremida da marmita, às vezes fria porque nem sempre dá pra vencer a disputa pelo micro-ondas em uma hora. Sempre correndo, sempre com medo do chefe repreender ou mandar embora, ou do chefe do chefe, ou do colega que acha que é chefe. Queria dizer você só pode estar louca de fazer uma coisa dessas; larga de ser tonta, troca de roupa e vai já pedir a chave de volta e destrancar o que trancou.
No silêncio de Adélia ela pensou, pensou e pensou. Mas não era o que sentia de verdade. Porque o que sentia era que Ariel precisava fazer o que tivesse vontade, algo de que ela pudesse se orgulhar, pelo que valesse a pena se esforçar.
“O que vai te fazer feliz?”
Ariel não soube de imediato o que responder, a única certeza que teve foi da vontade que teve de envolver a mãe num abraço e, acima de tudo, ser envolvida por ela.
📚 Indicação de leitura: Se Deus me chamar não vou, de Mariana Salomão Carrara (Nós, 2019)
🎶 Indicação de música: Sens, de Louane
Se você gostou dessa crônica, considere conhecer os Meus livros.
Gosta de ouvir histórias? Que tal conhecer o meu Sarau Solo?




Márcio, li com um nó no peito. Esse texto entende o peso das escolhas e, principalmente, o amor que aparece quando a gente para de projetar e passa a escutar.
Que acolhimento ✨🤍 Nem sei explicar. É tão difícil ver isso hoje em dia, em vida!