Sobra
Um conto
O leite quase derramou enquanto eu terminava de lavar as folhas de hortelã na pia. Tive que correr e desligar o fogo; só então eu me dei conta de que não sabia onde estava com a cabeça de tê-lo ligado antes de acrescentar a erva à mistura. Selecionei do ramo as que estavam com o verde mais vistoso e joguei dentro da caneca. Voltei a lutar contra o fogão, porque, apesar de ter cinco bocas, só duas delas funcionavam perfeitamente; as outras três precisavam de certa habilidade: apertar por mais tempo, girar mais ou menos rápido, quase o segredo de um cofre. Eu já tinha perguntado à minha avó por que ela nunca trocava aquele fogão velho, que acumulava desgostos, mas ela parecia não ligar, e me deixava sem resposta, numa desfaçatez serena, que dava até vontade de rir.
O cheiro subiu tão rápido quanto o leite, e dessa vez eu não tive tanta sorte; parte do líquido bufante escorreu pelas beiradas da caneca e foi serpenteando alumínio afora, até o pequeno riacho branco encontrar o fogo e parte dele praticamente sumir evaporado. Agi o mais rápido que pude, e levei a caneca até a pia; a boca do fogão ficou pretejada e fiquei com medo de ter calado mais uma delas. Suspirei resignado. Ia pegar o pano para limpar a sujeira quando a minha avó interveio daquele jeito sai-pra-lá-você-não-limpa-direito, tomou o pano das minhas mãos e me enxotou da cozinha, não sem antes me lembrar de encher a xícara com o meu leite com hortelã.
Estava delicioso.
Segurei a xícara com as duas mãos, como se ela fosse me aquecer por inteiro, enquanto encontrava uma posição confortável na cadeira de plástico que eu tinha levado para o alpendre. De onde estava sentado, eu conseguia ver uma estradinha de terra que se desenhava no meio da montanha lá no horizonte, adivinhava também um ou outro telhado das casinhas do bairro e ouvia as maritacas berrando para lá e para cá. E era curioso pensar que, se eu não estivesse de férias e no interior, eu também veria montanhas, telhados e até ouviria um pássaro ou outro aqui e ali, mas tudo passaria despercebido, sem cor, feito a cidade. Ou talvez a cidade ainda mantivesse suas cores, mas eu é quem tenha perdido a capacidade de visualizá-las, acuado numa rotina de sentidos cinzas.
Ouvi a minha avó arrastando os chinelos pela casa, sinal de que já tinha terminado a limpeza do fogão e a chamei para se sentar ali comigo um pouco. Inquieta, ela veio, mas como não conseguia ficar sem fazer nada, trouxe a sacolinha com o emaranhado de linhas, que algum dia tinha sido um novelo, a agulha, e pôs-se a crochetar. Os olhinhos, já miúdos, estreitavam-se ainda mais tentando enxergar a precisão dos nós e pontos.
“Conta da sua vida, vó”, eu pedi.
Ela me encarou encabulada, deu um muxoxo e voltou a encarar a linha e agulha. Fiquei nesse vácuo por alguns minutos, mas não senti vontade de preenchê-lo. Depois de um momento de vaivém frenético com os dedos, ela enfim respondeu.
“Eu te contava tanta história quando era pequeno”.
“Eu sei”, respondi. “Por isso que pedi; fiquei com vontade de lembrar”.
“Tão novo e já tá esquecido”, ela brincou. “E cê acha que eu vou alembrar?”.
Dessa vez eu que me calei. Era óbvio que ela se lembrava, aliás, ela jamais tinha esquecido. Eu também. Mas eu tive uma necessidade urgente de ouvir dela, com a voz da narradora-personagem.
Quando a minha avó voltou a falar, o que restava da minha bebida eram só as folhas de hortelã murchas no fundo da xícara.
“Eu tinha doze anos quando saí de casa. Onze para doze”, corrigiu-se. “A mãe tava quase exaurida de tanto parir: oito criança viva, duas que não aguentaram muito e uma que já saiu da barriga pra dentro da terra. Ela até que tentava ficar triste, mas não dava tempo não. Tinha muita boca pra cuidar, e mais o pai que exigia a casa limpa, a comida pronta, a atenção para quando ele quisesse. Ele não era ruim, não, tratava todo mundo bem, do jeito dele. Aí quando os filhos iam ficando maiorzinho, já ia dando jeito de ir botando no mundo. Os filho homem era mais fácil, não faltava roça precisando de alguém; mas menina era preciso casar, e casar logo, porque aí ia viver com o marido e aliviava as coisa em casa. Eu sobrei”.
Então ela parou de falar outra vez, desfez e refez alguns pontos no crochê e eu fiquei sem saber se a interrupção abrupta era fruto do erro no trabalho que ela fazia ou do peso das lembranças. Ela escolheu começar a narrativa dizendo que tinha saído de casa, mas terminou o breve relato chamando atenção para o fato de ter sobrado. O quanto aquilo pesava eu jamais poderia compreender. E esse estalo de realidade me doeu fundo. Eu sabia de histórias daqui e ali, trechos recortados de uma vida simples, mas cheia de momentos extraordinários, porque eram assim contados. Com isso, nunca tinha me dado conta da parte que ficava de fora das anedotas cotidianas, daquilo que não era escondido, mas guardado, ou abafado, ou contido. O que significava ter sobrado?
Estava curioso, mas ao mesmo tempo não queria deixá-la triste. Eu nunca tinha visto a minha avó chorar, e nem queria. Seria como se tudo que me sustentasse ruísse ao redor de mim. Tentei improvisar.
“Conta daquela vez que a senhora teve que me pegar correndo de perto da árvore que começou a pegar fogo, porque eu estava brincando com fósforo e acabei perdendo o controle”, pedi. Essa era uma história engraçada; engraçada porque tinha terminado bem, apesar do susto. Uma criança brincando de acender fósforo perto de uma árvore cheia de folhas secas; o fogo se alastrando rápido e uma avó desesperada com jeito de bombeiro, usando a mangueira de casa para salvar o neto. Ela sempre ria quando contava. Mas não dessa vez. Olhou para mim com um sorriso tão mal disfarçado que eu só via a tristeza.
O mal-estar não durou muitos minutos, porque ela se levantou bruscamente, tão abrupta que nem parecia cheia de dores. Acompanhei-a com o olhar interrogativamente, quando ela me respondeu, como se justificasse a saída.
“Vai vir chuva, preciso tirar a roupa do varal”.
“Eu ajudo, espera aí”, acudi.
“Não precisa; você deixa a roupa virar uma maçaroca, depois fica mais amassada ainda pra passar. Fica aí”.
Acatei outra vez. E olhei para o tempo. Não parecia que ia vir chuva.
***
Choveu, como a minha avó previa.
Ela sabia de algum mistério do tempo ou ele resolveu obedecê-la, como eu. Se eu fosse poeta, talvez fizesse alguns versos aludindo as gotas de chuva a algum pranto dela, mas eu não sabia rimar nem construir a vida em estrofes ritmadas e bonitas. Quando tentava, saía um punhado de palavras ajuntadas sem valor de arte.
A minha avó se deitou para o cochilo da tarde. Eu fiquei tentado a fazer o mesmo, até deitei, mas não consegui pregar o olho. Estava bastante desperto. Fiquei com vontade de fazer algo útil, quem sabe até um bolo, assim quando ela acordasse eu poderia surpreendê-la com um café da tarde pronto, mas fiquei receoso de fazer muita bagunça e acabaria não dando conta de arrumar tudo antes que ela despertasse. Não queria que ela assumisse mais uma vez a sujeira que eu fazia.
Na TV, não estava passando nada de interessante. Havia poucos canais abertos disponíveis com a anteninha naquela casa, o que era bom o bastante para a minha avó, que só assistia uma ou outra novela mexicana e zapeava por algum jornal sensacionalista, apenas para ficar com medo de que eu pudesse ser atacado a qualquer momento na cidade.
Eu não tinha trazido comigo nenhum livro, o que tinha sido um erro, e não queria me conectar à internet do celular. Estava exausto da tela me puxando para um multiverso de conteúdo desinteressante, mas viciante. Peguei o aparelho e usei da sua função original: liguei para a minha mãe. Ela atendeu no quarto toque.
“Tudo bem aí?”, foi como ela atendeu.
“Tá sim”.
“Você me assusta ligando assim”.
“Ligando de que jeito?”
“Uai, do nada”.
“Tá ocupada?”, perguntei, estranhando.
“Tava lavando louça”.
“Ah”.
“Achei que sua vó tinha tido um treco, sei lá”.
“Ela tá dormindo agora”.
“Você devia dormir também”.
“Até tentei, mas não consegui”.
“É isso que a cidade grande faz. Deixa as pessoas tão ligadas que nunca apaga”.
“Já viu a vó triste?”, mudei o assunto.
“Você já me viu triste?”, ela me devolveu a pergunta. Então eu tive que tirar um tempo para pensar. Eu não me lembro de ter visto a minha mãe triste. Ou será que eu só não tinha notado?
Antes que eu pudesse formular resposta, ela emendou.
“Você nunca me viu, porque sou sua mãe, eu também nunca vi a minha mãe triste, que é a sua vó”.
“Por quê?”
“Você me conta tudo da sua vida?”
Silenciei.
“Vou lá terminar a louça. Mais tarde eu passo aí”, ela encerrou a conversa.
“Tá bom, tchau”.
A minha mãe mora a pouco mais de dois quilômetros da minha avó, numa área um pouco mais urbanizada. O exercício de caminhada entre a casa dela e aqui é quase cotidiano. Às vezes para ajudar nalguma coisa, ora para trazer ou buscar alguma verdura da horta ou então só para jogar conversa fora.
Como ela anunciou que viria, resolvi ir para a cozinha preparar alguma coisa, tomando o cuidado de não fazer tanta sujeira. Se a minha avó acordasse, eu tentaria demovê-la da ansiedade de sair organizando tudo, com a desculpa de que queria fazer algo para a minha mãe eu mesmo ou algo assim.
Numa das gavetas do armário da cozinha, encontrei um caderninho de receitas; as folhas amareladas contavam uma história à parte. Folheei com cuidado, como se estivesse com uma primeira edição de escritor famoso, e escolhi uma massa de pão que parecia fácil.
Enquanto eu colocava pedaços de madeira no fogão, para servir de lenha, a minha avó se materializou do meu lado. Ela parecia um pouco mais animada do que antes, o que me fez pensar que talvez ela só precisasse de uma soneca para renovar as energias. Por um lado, fiquei contente por isso; por outro, considerei que pudesse ser uma feição fabricada, apenas para disfarçar o que ela deixara transparecer mais cedo.
“Deixa eu acender”.
“Já consegui, obrigado”.
“O que tá fazendo aí?”
“Uma receita de pão que achei aqui no caderninho”.
“Hum, isso aí é antigo, viu?”, ela comentou, parecendo saudosa, mas não triste como antes.
“Quanto tempo?”
“Eu passava a limpo algumas receita que minha mãe e as tia tinha. Uma ou outra eu peguei de alguma vizinha. E tem até da televisão, que eu anotava correndo. A última vez que usei esse caderninho, sua mãe era de colo. Tem bastante tempo”.
Enquanto me distraía contando, as mãos dela já haviam agarrado a vasilha que eu tinha colocado os ingredientes para começar a massa e começado a misturar. Olhei para ela com a cara de repreensão mais terrível que consegui fazer, mas ela não se importou e continuou o trabalho até formar a massa e colocar para descansar.
“Eu ia fazer”, atalhei.
“Já adiantei. Mas se cê quer tanto ajudar, por que não vai lá no quarto e tira a roupa de cama que tá na parte mais alta do armário pra vó? Eu quero pôr tudo pra lavar ainda hoje, deve tá com um cheiro muito ruim de guardado”.
Não era exatamente a atividade que eu mais queria fazer para ajudá-la, porque pensava no estrago que o cheiro que ela mencionava poderia fazer no meu nariz, mas eu fui mesmo assim, pelo menos era algo em que poderia ser útil de verdade.
Achei que a minha avó ia me seguir para supervisionar a tarefa, mas ela ficou pela cozinha mesmo, inventando mais coisas para o café, além do pão.
Eu conhecia quase de cor a casa da minha avó, que não havia mudado praticamente nada nos meus trinta anos. Ela tinha quatro quartos, todos eles muito parecidos, embora um deles tivesse um beliche ao invés de uma cama de casal. O guarda-roupa também tinha modelos distintos, mas sempre com uma porta de cada lado, um espelho com prateleira no centro, com quatro gavetas.
Mas havia outras distinções: tinha o quarto que era tido como meu, porque era o que eu sempre usava quando estava na casa dela; e ela deixava o cômodo desocupado se eu não estivesse; mesmo com outra visita para pernoitar e independentemente do número de pessoas, ela destinava aos visitantes os outros aposentos, às vezes até a sala. Havia o quarto dela, que tinha sido o quarto dela e do meu avô, quando ele ainda era vivo. Os outros dois quartos eram sempre ocupados pelas visitas, mas um deles – o do beliche – também era o que eu poderia apelidar de despensa de quartos, porque era onde ela ocupava praticamente todo o armário com roupas de cama; a minha avó adorava esses itens, de modo que tinha uma variedade de lençóis, fronhas, viras, mantas, edredons, cobertores, cortinas e outras tantas coisas. Assim, ela não precisa sequer ter especificado o quarto – eu já sabia.
Embora mais alto do que a minha avó, eu não era tão grande a ponto de conseguir alcançar a última prateleira. Tive que descalçar os sapatos e subir na beirada da cama; se ela me visse fazendo isso, ia me xingar, com certeza, porque fazia isso quando meus primos e eu éramos crianças. Se estivéssemos pendurados em qualquer lugar perigoso, ela parecia como que materializada bradando um desce já daí, ou você vai cair e quebrar o pescoço. Eu nunca caí, mas um primo chegou a dar esse desgosto uma vez; perdeu o equilíbrio e, quando viu, estava estatelado no chão, a cara contorcida – de dor e da força para segurar o choro, porque ele era macho demais para se render. Ele caiu em cima do braço, quebrou e teve que ficar mais de um mês engessado. A minha avó, que poderia com toda razão ter soltado um eu avisei, preferiu ser mais positiva: ainda bem que não foi o pescoço, foi o que ela disse na época.
Em poucos minutos, praticamente toda a cama estava ocupada por tudo o que tirei do guarda-roupa. Quando puxei a última coberta, um envelope, que estava embaixo e eu não havia visto, caiu no chão.
A minha curiosidade ficou aguçada. Desci, agarrei o envelope e o escondi nas minhas costas. De volta à cozinha, avisei a minha avó que já tinha deixado tudo em cima da cama. Ela agradeceu, disse que já ia colocar tudo na máquina, enquanto a massa do pão fermentava. Então me encarou e franziu a sobrancelha.
“Você tava pendurado na cama?”, ela me perguntou subitamente. Olhei para os meus pés e vi que tinha esquecido de calçar os sapatos. Antes que eu pudesse argumentar qualquer coisa, ela remendou. “Se caísse e quebrasse o pescoço, ia ficar lá mesmo, porque eu velha do que jeito que tô não ia aguentar pegar ninguém do chão”.
“Desculpa, vó”, pedi. “Acho que vou andar um pouco lá fora”, arrisquei escapar.
“Tá tudo molhado, vai emprastar o seu sapato de barro”.
Eu tinha esquecido que estava chovendo; na verdade, tinha parado já, mas como a rua dela não tinha calçamento, assim como o quintal, de fato, estaria tudo cheio de poças d’água. Mas eu estava curioso para saber o que tinha naquele envelope, e não queria que ela soubesse que eu estava fuçando no que não era da minha conta.
“Então, vou tentar deitar um pouco de novo, antes que a mãe chegue”.
“Tá bom, ela vai vir mesmo?”
“Acho que vai, sim”.
Quando cheguei no quarto que era o meu, tranquei a porta, algo que não costumava fazer. Sentei-me no chão mesmo, apoiando as costas na beirada da cama e abri o envelope.
A minha ansiedade estava a mil. Eu pensava em infinitas possibilidades para o que eu encontraria ali: uma carta reveladora de algum segredo que mudaria a forma como eu veria a minha avó, ou outro membro da família, ou talvez fosse algo que nem ela própria sabia da existência, como uma carta escondida pelo meu avô antes de morrer ou por alguma das minhas tias ou, quem sabe, até pela minha mãe.
Abri.
Dentro dele, havia uma única foto, todo puída pelo tempo e apesar disso ainda era possível reconhecer as figuras ali eternizadas: a família da minha avó, a minha família. Embora eu não tenha tido a oportunidade de conhecer todos os irmãos dela, os olhares, as expressões e a aparência eram inegáveis. A beleza da foto, para além de estarem todos reunidos era que, diferentemente daquelas imagens antigas em preto e branco nas quais todo mundo aparece carrancudo, naquele registro, eles sorriam, sorriam e até se enlaçavam com os braços. Virei a imagem pensando que pudesse ter a indicação da data em que ela fora tirada, mas não tinha nada, só o amarelado do tempo mesmo é que servia de parâmetro.
De repente senti um nó na garganta. Eu me lembrei de como a minha vó parecera triste pouco antes, quando sentenciou que havia sobrado. Não era só na casa dos pais dela. Era no mundo.
***
Olhando em retrospecto, eu nunca tinha pensado na minha avó ou na minha mãe como pessoas que tiveram famílias antes da que eu faço parte. Eu desconhecia os capítulos dessa história que vinha sendo escrita há sei lá quanto tempo anterior à minha existência. Eu também nunca vivenciara, até então, a morte de algum parente, de modo que sentimentos como luto e tudo o que ele traz eram uma equação que eu não saberia resolver – se é que sabem aqueles que já passaram por ela.
Essa sensação de distanciamento me doeu um pouco. Comecei a me sentir um estranho que chega de repente na vida de alguém e vai se espremendo até caber na rotina de todo mundo; a gestação de uma família inteira, que nunca mais é a mesma quando um novo membro nasce. Eu queria conhecer quem era a minha avó antes de ocupar esse papel; quem era ela quando só havia a maternidade e a minha mãe; e antes disso, quando ela era só uma filha e uma irmã. O que ela pensava, que sonhos tinha, e se sobrar dói tanto porque ela sente falta daqueles que eram a família dela antes da gente ou porque nós não somos exatamente o que ela tinha desejado.




Márcio, adorei o conto, há algo de hipnótico na forma como você transforma um dia banal em mapa de constelações silenciosas, fiquei com o coração enroscado na palavra "sobrei". Ela carrega uma densidade quase palpável, como se todo o texto girasse em torno dessa pausa. O que me provoca é pensar que “sobrar” não é só ficar para trás, às vezes é também resistir ao roteiro esperado, existir fora da cronologia que os outros definem.
Quando você descreve a avó crocheteando, prevendo a chuva, guardando receitas e silêncios, sinto que o tempo ali é outro: um tempo circular, onde o passado não termina e o futuro não começa, apenas se repete em gestos de cuidado. E talvez o “sobrar” seja a coragem de habitar esse tempo próprio, mesmo que doa.
Me peguei lembrando das minhas avós (uma que já se foi), das histórias que não fizeram questão de contar. Será que a gente, na ânsia de registrar tudo, não perde justamente o que elas souberam guardar?
O que você acha? existe uma forma de escutar essas vidas para além do que elas permitem dizer, ou o silêncio também é uma escolha que merece ser respeitada?
Sempre tão perspicaz e sensível...
A eterna mania dos "mais adultos" que nós (principalmente as mulheres) de sempre acharem que nao fazemos como eles as coisas... Perfeccionismo, mas também talvez uma vontade de assim demonstrar cuidado
cuidado
Parece um filme pra mim...
Descrever cenas com as palavras