Traços
Uma crônica
Quando a atendente do caixa falou o valor da compra, toda a expressão de Denise foi de surpresa. Tanto que a moça que a atendia achou que pudesse ter falado rápido demais se o pagamento era no débito ou crédito, de modo que repetiu a instrução, um pouco mais devagar na segunda vez. Mas não era problema de dicção o que espantara Denise; a confusão lida em seu rosto era o valor em si: uma cifra pomposa demais por café com aparência de aguado e um pão de queijo que parecia mais desanimado do que ela quando acordava cedo demais, cansada demais ou dormia além da conta.
Pagou. Não tinha outro jeito. Ela não ia se prestar ao papelão de desistir e devolver o pão de queijo murcho que fora aquecido só para ela, ou o café, tão bem acomodado num copo com o nome dela escrito numa letra redondinha acompanhada de uma carinha feliz. Aliás, ela desconfiava que, mesmo se tentasse, não seria aceita a devolução.
Concluída a transação, ela pegou os dois itens e dirigiu-se à mesa que ficava a um canto e permitia que ela tivesse uma visão ampla da cafeteria ao mesmo tempo que era separada da rua apenas pelo vidro. De lá, vasculhou brevemente a paisagem com o olhar até encontrar, acima das máquinas que os baristas operavam, o menu desenhado, com os nomes dos cafés especiais e os preços ao lado. Que idiota eu sou, pensou Denise. Ela que tanto se gabava de ser uma boa observadora, de seguir as regras, de ler os avisos, tinha deixado aquilo escapar. Por outro lado, não era um crime se dar ao luxo de comprar algo mais caro de vez em quando.
Tirou a tampa do copo de café e lançou dois pacotinhos inteiros de açúcar à bebida quente. Ela já tinha tentado beber sem adoçar, mas tinha detestado. Resolvera permanecer no desconhecimento do sabor verdadeiro do café e vivia bem com isso. Lambeu a pazinha de madeira assim que terminou de misturar todo o líquido. A espuminha estava doce como ela gostava. Mordiscou o pão de queijo que, apesar da aparência, tinha um sabor agradável.
Em seguida, Denise abriu a bolsa que trazia a tiracolo e tirou de lá um caderninho e uma caneta. Enfim ia fazer aquilo que sempre via nas fotos de pessoas que ela seguia nas redes sociais: desenhar pessoas aleatórias. Não que ela fosse uma grande artista, bem que queria, mas ainda estava começando nessa arte. Seus trabalhos consistiam em esquetes com uma anatomia ainda mal ajambrada, mas ela tinha assistido a um vídeo de um artista que dizia que, para a arte, não existe certo ou errado e que, embora as técnicas preguem certo rigor, o belo reside na força da expressão de cada traço, que é sempre único. Essa perspectiva inspirou Denise. Então, sem perder mais tempo, ela decidiu que se meteria a se desafiar.
A primeira musa de Denise estava sentada cinco mesas depois dela, quase em linha reta. A mulher parecia ter entre 25 e 30 anos, não mais nem menos do que isso. Trajava uma bonita roupa de seda, com um casaco de linho pendurado na cadeira. Ela usava fones de ouvido, apoiava os cotovelos à mesa e o queixo nas mãos cruzadas enquanto encarava a tela do laptop. Na testa, uma ruga parecia indicar preocupação ou descrença. Ou seria raiva? Denise resolveu registrar a mulher com a técnica de hachuras, usando apenas linhas em todas as direções para formar os contornos e preenchimentos. Achou que combinaria com a tensão e o mistério que ela exalava. Em sua representação, a mulher era uma escritora famosa que preparava o seu discurso para agradecer o recebimento de um prêmio importante ou uma executiva que analisava os resultados nada animadores da empresa que dirigia e agora tinha o desafio de reverter o quadro. Estava quase concluindo de desvendar o olhar da mulher, quando ela fechou o laptop subitamente e guardou-o dentro da bolsa sem nem tirar os fones de ouvido, que foram içados para dentro do compartimento sem nenhum zelo. Observou-a deixar a cafeteria com um andar apressado. No desenho, o olhar ficou perdido.
Denise fechou o caderninho com a caneta marcando a página da ilustração na qual trabalhava e ocupou-se do pão de queijo e do café outra vez, mordendo um naco tão grande que foi preciso beber uma grande volume do café para amaciá-lo na boca e ajudar na mastigação. Ao fazer isso, esquadrinhou ao seu redor, com receio de que não fosse a única a desenhar gente desconhecida, afinal, ela não queria ser imortalizada numa cena tão constrangedora. Mas aparentemente ela era de fato a única cliente dada a intromissões artísticas.
Ainda que estivesse entretida com a comida, não estava alheia à observação. Flagrou, numa mesa que ficava parcialmente escondida por uma coluna, um beijo. Ainda acompanhando a cena, não teve dúvida: engoliu o pedaço restante do pão de queijo e agarrou-se à caneta de novo. Denise riscava o papel com sofreguidão, como se registrar aquele momento tão íntimo fosse um desafio que ela estava destinada a cumprir. Ela quase conseguiu. Quase. No instante em que fixou o olhar no casal, atenta para reproduzir cada traço e expressão e posicionamento, o beijo acabou. Abrindo o olho, a primeira coisa que a moça viu não foi o rosto do amante, mas a expressão de Denise que os escrutinava. Assustou-se e cobriu o rosto com as mãos. O rapaz que a acompanhava, só por um átimo de tempo, pensou ser a causa da intimidação, mas ao dar-se conta de que estava errado, se virou e também ele deu de cara com a artista. Sem sair de onde estava, gritou.
“Ei, perdeu alguma coisa?”
Denise arregalou os olhos. Estava envergonhada. A face rubra denunciando todo o embaraço.
“Desculpa”, soltou baixinho.
“Desculpa é o caralho; vai cuidar da sua vida”. O rapaz fez que ia se levantar, o punho cerrado numa das mãos, mas ele foi impedido pela amante. “Tá tudo bem”, ela disse. “Para com isso, não foi nada”.
Denise estava assustadíssima, mas o medo não a impediu de uma última artimanha. Rapidamente ela jogou o copo no lixo, ainda com pouco menos da metade da bebida e atirou o caderninho e a caneta na bolsa, não sem antes arrancar a página em que havia desenhado o casal. Foi até a mesa onde estavam, largou o desenho, deu as coisas e saiu sem nem olhar para trás.
📚 Indicação de leitura: A improbabilidade do amor, de Hannah Rothschild (Morro Branco, 2018)
🎶 Indicação de música: Lifted, de Birdy
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Sempre um prazer ler seus textos tão vivos que consigo imaginar as cenas como num filme. Muito bom!
Bem, eu nunca tentei desenhar desconhecidos em um café e tão pouco passei por um constrangimento igual ao da Denise. Mas, quem nunca pediu sem olhar o preço do que tinha comprado e, depois, se arrependeu amargamente, forçando a convencer-se de que afinal não era nada tão grave assim!