Quanto
Um conto
O cheiro de bife acebolado sendo feito por algum vizinho foi o que me despertou, e eu até estranhei que conseguisse continuar dormindo com o sol brilhando no meu rosto com toda a força que tinha; abri os olhos, mas a claridade impediu que eu os mantivesse abertos. Meu estômago roncou alto com o cheiro, senti a fronha do travesseiro empapada de suor e então não consegui mais dormir. Meu corpo parecia pesar o triplo quando me pus sentado na cama. A cabeça girou uns instantes, senti minha boca seca; era a minha primeira ressaca.
Era uma sensação de entorpecimento estranho que, sinceramente, eu não sei se gostaria de senti-la uma segunda vez; mas, ao mesmo tempo, tinha valido a pena.
Saí do quarto tateando as paredes com medo de que pudesse me desequilibrar, até que cheguei ao banheiro, felizmente desocupado, e enfiei a cara numa torrente de água gelada do chuveiro. A sensação brusca apaziguou um pouco a minha letargia e, com isso, eu estava pronto para dar conta da segunda missão: a fome.
Cheguei a tempo de ser encarado pelo Lenon, que me fitou de cima a baixo com uma expressão de quem não aprovava o que via. Tive vontade de ralhar com ele, até deixá-lo bastante irritado, o que era bem fácil, bastava fazer alguma brincadeira com o nome e tratá-lo de John, ou então algo mais ridículo ainda como insinuar que por um N ele não era famoso e poderia viver numa mansão em vez de dividir um apartamento de trinta e poucos metros quadrados, mas foda-se, eu não estava com cabeça para isso.
Ele estava de saída e, antes de fechar a porta atrás de si, poderia deixar um bom dia, mas limitou-se a apenas um anúncio.
“O boleto da internet chegou. É todo seu”. E saiu.
Pisquei os olhos um par de vezes, não incrédulo, porque eu sabia que essa conta ia chegar, mas irritado, porque pensei que teria alguns dias a mais sem me preocupar com isso, mas era o que era. Antes de me ocupar do papel, fiz uma xícara de café solúvel e tomei puro; estava horrível, porque sem açúcar, porque de má qualidade. Suspirei. Vasculhei o armário atrás de algo para comer e encontrei duas bisnaguinhas restantes no pacote. Era o que tinha. Usei um pouco da margarina do Lenon para dar alguma untuosidade e engoli imaginando que comia um croissant absurdamente amanteigado ou o bife acebolado que tinha me acordado. Mas a minha imaginação não era tão fértil a esse ponto ou as minhas papilas é que não se deixavam fazer de tontas. A maçaroca entalou na garganta. Tossi, tossi, tossi e tive que empurrar tudo com um pouco de água da torneira.
Levei a correspondência para o quarto e ia abri-la quando ouvi a vibração do meu celular e desviei para a notificação. Era um e-mail. Do banco. Droga. Mais uma conta. O aviso do fechamento da fatura do cartão. A fatura do cartão de crédito é a minha única conta, tudo concentrado ali, até o aluguel, o que é algo muito positivo, se for pensar. O lado negativo é que a fatura do cartão de crédito é a minha única conta, tudo concentrado ali, até o aluguel, o que me deixa com pouco limite para compras extravagantes, mas me enche de coragem para pequenas aventuras cotidianas, como café da manhã em padarias, doces aleatórios em tardes sem nada de especial e, por último, bebidas em balada, que custam mais do que as bebidas em qualquer outro lugar e contexto.
Além disso, eu tinha insistido com o Lenon para a gente colocar internet fibra ótica em casa, e me comprometi a pagar sozinho se ele ficasse com a conta de energia, logo, tinha agora, pela primeira vez, a minha segunda conta. Somei as duas. Entrei no aplicativo do banco para checar o meu saldo. Não batia. E era ridículo porque faltavam vinte e três reais e doze centavos. Eu não tinha mais vinte e três reais e doze centavos. Não adiantava nem vasculhar bolso de calças, bolsa, gavetas nem nada disso. Mas ainda assim foi o que fiz. Não encontrei.
Por um milésimo de segundo eu pensei em entrar no quarto do Lenon e fazer o mesmo com as coisas dele, mas eu rechacei a ideia antes que ela tomasse corpo. Eu não me sujeitaria a isso. Além do mais, eu tinha que me arrumar para o trabalho. No caminho, eu poderia pensar em alguma estratégia. A mais óbvia, é claro, seria pedir um adiantamento. Mas aí eu teria que encarar a impertinência do Afonso, e eu não estava nem um pouco afim. Eu também não poderia simplesmente ligar para a minha mãe e pedir dinheiro emprestado, por dois motivos: eu não conseguiria devolver, o que desconfiguraria totalmente o conceito de um empréstimo e, dois, ela provavelmente precisaria até mais do que eu. Ficar no vermelho não era uma opção, a menos que eu quisesse permitir que a minha situação piorasse em níveis estratosféricos.
Cheguei no trabalho tão avoado que cumpri a minha meta de ligações do dia da maneira mais automática possível. Olhando de outra perspectiva, talvez esse tenha sido o primeiro e único dia que fui um exemplar atendente de telemarketing, tagarelando o meu roteiro de saudações, propostas e perguntas, falseando tons de espírito que eu nem possuía.
Na volta para casa, ousei; ao invés de fazer a peregrinação habitual da linha amarela, depois vermelha, depois azul no metrô e mais um ônibus na sequência, optei por usar apenas a amarela e desci na estação Paulista; andei o tantinho que faltava e cheguei até a Avenida Paulista por volta das cinco da tarde. O clima estava bom; tinha feito um tempo abafado durante o dia, mas uma brisa interessante suavizava tudo. Caminhei olhando para todos os lados, como se vasculhasse tudo, e talvez estivesse fazendo exatamente isso; quem sabe eu não encontrava vinte e três reais e doze centavos enroladinho nalgum canto. Não consegui nem rir da minha própria tentativa de piada.
Um pouco antes de chegar na entrada do Parque Trianon, avistei um homem parado, fitando o vazio, amparado por uma bengala; à frente dele, um chapéu estava apoiado quase aos pés do senhor Trianon – que é como eu chamo a estátua que fica ali. Eu não queria, mas meu corpo agiu fora do meu controle; fui me aproximando pouco a pouco, serpenteando o chapéu; até conseguir ver o conteúdo. Seria impossível saber quanto dinheiro já tinham depositado ali, a menos que eu não me importasse de ser completamente indiscreto, o que não era o caso, mas eu podia intuir uma nota de dez, uma nota de cinco e várias moedas. Precisar de, digamos, sete reais, era menos terrível do que vinte e três e doze centavos; uma redução de danos, eu diria. Eu tentava ensaiar uma forma de ataque sutil e sem alarde, quando uma voz me acudiu.
“Também precisa de dinheiro, é?”, o timbre era grave e me assustou de verdade, mais ainda porque eu não esperava que ele pudesse me ver. Estava diante de um charlatão, que nem é a melhor palavra para descrever o homem, mas a única que me ocorreu. Tive que limpar a garganta antes de responder. A voz saiu contida.
“Você tá enganando as pessoas se fingindo de cego, então?”, expressei a obviedade.
“Eu não sou cego”, ele devolveu, sem se dignar a virar o rosto ou alterar nada na postura. “Tenho uma deficiência visual”, completou. Eu dei um muxoxo. Claro, pensei. Enxerga pouco para ter um trabalho, mas o suficiente para me flagrar. Pensei em dizer que, na empresa onde eu trabalho, tinha vaga para pessoas com deficiência. Mas de que adiantava, eu trabalhava na empresa e olha aqui a minha situação. Ele tinha dinheiro no chapéu. Eu precisava de vinte e três reais e doze centavos.
Recuei e saí dali o mais rápido que consegui.
Só parei quando cheguei na pracinha lateral do shopping Cidade São Paulo; sentei-me no único banco livre que encontrei e fiquei ali martelando a minha frustração. Ou talvez a minha decepção. Fosse confortável, eu teria deitado no banco, em posição fetal ou ainda mais compactado, encolhendo-me até sumir, mas não era o caso. Especialmente porque eu já não estava mais sozinho. Uma mulher aproximou-se de mim e, sem cerimônia, ocupou o lugar ao meu lado.
“Eu vi o que você tentou fazer”, ela disse. Assim, sem contexto algum. Era a terceira pessoa que me abordava de supetão; eu que não era dado aos excessos de cumprimento, começava a sentir falta deles. Não respondi nada de pronto e apenas a encarei, querendo parecer confuso, mas com cara de desconcertado.
“Eu não sou um pedinte”, respondi, mais para mim do que para ela, porque eu repeti a mesma expressão três vezes. “Eu não sou um pedinte. Eu não sou um pedinte. Eu não sou pedinte”.
“Eu sei que não”. Ela tinha um sorriso fino nos lábios quando disse isso. Era como se zombasse de mim.
“Você parece duvidar de mim”.
“Não, você não pediu nada; ia pegar; e isso é bem diferente”.
Gelei. E enrubesci. E ainda tento descobrir como é possível essas duas formas coexistirem.
***
A intrometida foi embora da mesma maneira sorrateira que surgiu. Até me ocorreu se ela não tinha saído da minha imaginação, como um castigo pelo meu plano não executado, mas, se os russos estão corretos, eu só vivenciaria esse tipo de situação se tivesse cometido o crime de fato, o que não aconteceu. A menos que a mera ideação tenha o mesmo peso na hora do juízo. Eu não sei como são as regras.
O tempo tinha mudado e ficado mais estranho, com um céu dividido num azul manchado de poluição e algumas nuvens cinza, e a leve brisa tinha se transformado num vento mais presente, num cenário daqueles que afetam o humor, o que me deixava ainda pior do que já me sentia; eu queria pôr a culpa no meu pai, que morreu cedo demais, ou talvez a culpa tivesse que ser direcionada ao cara desatento que achou que o meu pai era só um cone no meio do caminho e que, ao derrubá-lo, bastava pôr em pé novamente e estaria como novo; ou então a culpa possa ter sido do SAMU, que demorou mais do que o previsto para socorrê-lo; poderia culpar os médicos que o atenderam, a enfermeira que veio com cara de exausta nos dizer que ele tinha ido a óbito, como se fosse um lugar para onde se vai, um eufemismo para o adeus. Ou talvez fosse mesmo a minha mãe que, engolindo o choro, me puxou atônito para casa, como se quisesse me mostrar que a vida tinha que continuar apesar de tudo, só que ela mesma não continuou, não sei se porque não quis ou porque não conseguiu e, nessa indecisão, foi minando os nossos recursos, que já não eram muitos.
Pensar nisso tudo me deixava ainda pior do que eu já me sentia, porque parecia um sentimento imutável e insuperável, não importa se ocorrido há poucos meses ou os quatro anos que já contavam. Esperei escurecer para pegar o trajeto de volta para casa. Dessa vez, nem me detive em olhar para o chão em busca de dinheiro perdido. Ao invés disso, pouco antes de embarcar no metrô, eu peguei o celular e enviei uma mensagem para o Fabiano.
Eu não escrevia para ele fazia quase um ano, desde que a gente terminou o nosso envolvimento estranho, porque não dava para continuarmos amigos e parecia impossível que tentássemos algo além disso. Conviver com o Fabiano era como conviver com um reflexo de mim mesmo. Toda vez que eu tinha algo a criticar sobre ele era como se estivesse falando sobre os meu próprios pensamentos e ações, e acho que era igual para ele também.
No começo, achávamos o máximo fazer aniversário no mesmo dia; todo casal tinha um dia especial para si; nós tínhamos um para chamar de meu e nosso ao mesmo tempo. Mas não foi tão legal quando fomos nos percebendo tão semelhantes em quase tudo; era irritante. Aí a gente discutia e o que era bonito ia enfeando, até que decidimos interromper bruscamente. Não fosse trágico, teria sido até engraçado ele me dizendo preciso que você não fale mais comigo, porque eu não vou conseguir ficar longe se você ainda estiver perto. E eu entendi isso, porque sentia igual; não fosse ele ter dito, a frase seria minha.
Mas agora era uma situação atípica. Fabiano era, provavelmente, um único traço de esperança que a minha mente conseguia pintar. E uma esperança mais segura, e que não me deixaria absurdamente envergonhado. A princípio, tinha apenas digitado um “oi”, e ficaria aguardando na expectativa de que ele correspondesse, mas depois eu pensei melhor, que eu detestaria receber essa mensagem truncada, sem saber qual era a intenção do remetente. E elaborei melhor, sendo o mais sincero que consegui; pedindo dinheiro emprestado sem pedir dinheiro emprestado. O meu único receio era que ele não pensasse que a minha saudade tinha preço.
Sem rede no celular enquanto cruzava as entranhas da cidade, só fui ver a resposta quando já estava perto de casa, pegando o trajeto derradeiro, dentro do ônibus. O passeio aleatório pela Avenida Paulista tinha ajudado nisso; o mundaréu de gente no terminal de Santana já tinha se dissipado e eu tinha conseguido até lugar para sentar-se. Achei que ele me escreveria uma mensagem mais robusta, mas só encontrei três palavras: quer vir aqui?
Fabiano morava na Água Branca; ir até o apartamento dele significava repetir boa parte do caminho que tinha acabado de fazer de metrô, mas na direção oposta, e depois pegar mais um ônibus; além disso, eu teria que gastar um pouco mais do meu bilhete de transporte o que, nas minhas condições, não era o mais prudente e indicado. Por outro lado, eu ia chegar em casa e fazer o quê, encarar a cara de bunda do Lenon reclamando que a namorada ainda não tinha voltado do intercâmbio, que não sabia direito se queria continuar com uma garota com uma rotina que ele não conseguia bancar nem acompanhar e outras reflexões com o mesmo sentido. Eu sentia pena dele, e podia, em alguma medida, compreender como esses sentidos iam se tornando mais férteis, mas, ao mesmo tempo, não conseguia formular bons conselhos e, confesso, estava um pouco cansado de ouvir essas lamúrias. Então, eu fui, não sem antes enviar um “tô indo”, assim, tão sucinto quanto Fabiano foi.
Desci do ônibus poucos segundos antes de o motorista fechar a porta traseira e voltei para o metrô; andei três estações sozinho no vagão, que coisa inédita, que coisa estranha; acostumado que eu era com o amontoado dos horários de pico de todo dia, era um vazio quase doído, ao menos confortável. De manhã tinha os vendedores de tudo, e os pedintes; como eu olharia para eles sem me lembrar dos meus vinte e três e doze que faltavam?
Quando eu cheguei na Barra Funda, peguei outro ônibus; e aí chegou uma mensagem do Fabiano. “Vou tomar banho, já avisei para liberar sua entrada, caso já esteja chegando”. Ele só esqueceu que eu não tinha mais a chave; não ia acontecer, mas, se de fato chegasse muito rápido, mesmo que passasse livre pela portaria, continuaria do lado de fora. E ri desse pensamento, porque me ocorreu uma metáfora idiota: era como tinha sido a minha relação com o Fabiano; dentro, mas nem tanto; molhado, mas nunca imerso. Nem me dei ao trabalho de lembrá-lo da chave, ainda levaria uns bons vinte minutos e, pelo que eu me lembro, os banhos dele não costumavam durar mais do que dez.
Não fiz desfeita e passei pela portaria como um visitante pré-aprovado, como se ainda entrasse e saísse dali com frequência. Nada havia mudado na estrutura e no curto trajeto entre a portaria e o hall, o que deixou essa impressão de um tempo congelado ainda mais intenso. Quando cheguei diante da porta e pressionei de leve a campainha, fui recebido por um Fabiano trajando pijama; por um segundo, imaginei o que aconteceria se ele tivesse aberto a porta e estivesse só com uma toalha se cobrindo ou, então, se ainda estivesse mesmo no banho, eu pudesse ter entrado e só o box nos separasse. Esse pensamento me deixou um pouco embaraçado – e com tesão.
***
Agora que tinha chegado diante dele, fiquei sem graça; queria achar qualquer assunto aleatório que eu pudesse usar para esconder a minha vexação – e as minhas mãos. Sutilmente olhei para o aparador ao lado da porta: lá estava uma possibilidade. Dei o melhor oi que consegui e peguei o exemplar de “Os abismos”.
"Voltou a ler, então. Que ótimo. Esse livro é muito bom", saiu uma frase ok, comum, mas efetiva. Ele comprou a ideia.
"Tô tentando retomar o hábito", disse com um risinho transitando entre o envergonhado e o forçado. "Eu nunca tinha lido nada do Chile, acredita? É uma história legal, mas um pouco deprimente. Talvez eu funcionasse melhor com algo mais alegre".
Achei até fofa a esperança dele de encontrar alegria numa história com abismo no nome, e no plural. Quer dizer, os sinais estavam ali, mas ele ainda achava que podia dar certo. Será que pensava isso da gente também e por isso me chamou até ali ao invés de apenas me responder por mensagem ou, de repente, me ligar? Esse pensamento inconveniente me angustiou um pouco. Devolvi o livro ao aparador, sem mais comentários sobre o nome, a história, a autora, a nacionalidade, nada.
"Como estão as coisas", eu ensaiei.
"Quer beber alguma coisa?", ele preferiu formalidades a me responder. Insisti.
"Como tem passado?"
Fabiano, que havia se distanciado para ir até a geladeira, se virou subitamente na minha direção, me encarou por alguns segundos que pareceram toda uma vida, e então deixou escapar um sorriso afoito.
“Ando bem”.
Fabiano não gostava muito de sair de casa. Os nossos encontros, por exemplo, eram sempre numa lógica pizza em casa ou algum barzinho dos mais tranquilos onde pudéssemos comer e conversar livremente, antes de voltar para casa. Fazer novos amigos não estava na lista de prioridades dele; nem na minha, a bem da verdade, mas eu não sei se esse efeito em mim era apesar dele, por causa dele ou como ele.
“Posso ajudar de alguma maneira?”. Eu tinha consciência de que essa era uma pergunta idiota, mas resolvi formulá-la assim mesmo; afinal, eu estava preenchendo os vazios, talvez para evitar que adentrássemos no objetivo de eu estar ali.
Fabiano apenas bufou de leve, enquanto colocava duas latas de cerveja em cima do balcão ao mesmo tempo em que fechava a geladeira com a perna e alcançava dois copos no escorredor da pia.
“Eu pensei em você esses dias”, ele soltou de repente, enquanto servia a bebida.
“E como foi?”
Ele riu da minha pergunta.
“Não foi um sonho”.
“Eu entendi”.
“Tá, mas não é estranho perguntar como foi um pensamento?”
Percebi que ele estava tentando se fazer de engraçadinho, descontrair, e eu realmente queria me lançar nessa onda, mas algo me reteve, e eu revidei.
“Estranho é você ainda pensar em mim”, quando dei por mim, já tinha falado. Tivesse usado uma tonalidade mais amena ou se a minha expressão fosse um pouco mais amigável, ele teria rido, talvez; mas eu estava com um ar carrancudo.
O tempo pareceu ficar suspenso por um instante, enquanto os dois consideravam aquela frase jogada assim; eu por me atrever dizê-la, ele por se atrever a provocá-la. Fabiano sorveu metade do copo com a cerveja; eu repeti o gesto.
“Era para ser engraçado”, tentei consertar.
“Eu sei; não fiquei encucado com a sua frase, mas porque eu concordo com ela. Já faz tempo, não é? Eu devia ter superado. Mas, em vez disso, eu chamo você para a minha casa, o que eu tenho evitado desde sempre”.
“A culpa foi minha, eu escrevi primeiro”.
“Eu sei, mas eu poderia ter ignorado. Eu poderia ter bloqueado o seu número. Ou eu poderia simplesmente ter me limitado a responder com mensagem”.
“Quer que eu vá embora?”
“Essa é uma pergunta complicada de responder. Eu quero ficar perto de você e quero que suma da minha vida. Você vai dar conta de fazer as duas coisas?”
Bebi o restante da cerveja, tomei a liberdade de me sentar à bancada e escorei a cabeça no meu braço, como se refletisse sobre o questionamento.
“Eu não consigo fazer nem uma delas direito”, e ri.
Fabiano sorriu e voltou a encher o meu copo. Em seguida, foi para o sofá e me chamou para perto dele.
“Tem saído com alguém?”, perguntou.
Neguei imediatamente. Tive umas semanas luxuriosas logo depois que nós dois rompemos; eu cheguei a sair com três caras diferentes num único dia; eu estava entorpecido; era como se precisasse que o corpo de outras pessoas lavasse Fabiano do meu. Mas depois foi perdendo o sentido, porque isso só ficava na superfície, enquanto ele estava do lado de dentro.
“Ando sem tempo”, respondi.
“Ainda trabalhando no telemarketing?”
“Até aparecer algo melhor”.
“Mas você procura?”
Joguei uma almofada na cara dele.
“Claro que não; estou esperando pipocar e-mails na minha caixa de entrada com assuntos como: “por favor, Ícaro, precisamos de você” ou “salários de dez mil, clique aqui”, brinquei.
“O que tá rolando, hein? Você há de convir que a sua mensagem era meio cifrada”.
“Foi por isso que propôs de eu vir aqui, para decifrar a minha mensagem?”.
“Também. Mas eu estava com saudade de conversar com você; eu também estou com uma vontade imensa de te beijar agora, mas não vou fazer isso”.
“Acha que eu vou te rejeitar?”
“Lembra do querer que você fique perto e suma? Pois então”.
Eu tinha uma sensação de que a gente estava se rodeando demais, o que não era algo inédito. Toda a nossa relação parecia ter sido constituída dessas conversações truncadas, tanto coisa sendo falada e tão pouco sendo dito de fato. Era como se algo nos impedisse de nos atravessar e ficássemos sempre na tangente, margeando as vidas um do outro. Num acesso de coragem, tentei romper essa bolha.
“Eu estou morrendo de vergonha dessa situação, mas era a única esperança que me restava. Pelo menos a única que não me deixasse inseguro demais, exposto demais, me sentindo inútil demais”.
Fabiano me fitou sem entender.
“Eu convenci o Lenon a colocar internet lá no apartamento; ele concordou, mas essa dívida virou minha, porque ele assumiu as outras. Parecia uma ideia muito boa, mas eu não calculei direito e agora tô preso numa anuidade e...”
Fabiano assentiu. Não era preciso terminar.
“Não precisa ficar envergonhado com isso; você já me emprestou, lembra?”
“Eu sei, mas era uma situação completamente diferente. Você só estava sem o seu cartão; não era como se não tivesse dinheiro. E, além disso, você me pagou horas depois. No meu caso...”
“Deixa disso. Quanto?”
“Vinte e três e doze. É ridículo, porque eu poderia pagar menos no cartão de crédito agora, e dar conta, mas depois ia virar uma bola de nove. Eu não quero nem posso ver esses vinte e três se multiplicando”.
“Eu não tenho nada a ver com isso, mas por que você não volta a morar com a sua mãe? Eu sei que você perde um pouco a sua liberdade, de alguma maneira, mas já consegue economizar, sem ter que pagar aluguel; pelo menos até você estar em outro trabalho ou...”
“Não”, eu o cortei. “Isso está fora de cogitação. Não tem a ver com perder a liberdade, tem a ver com o que aquele lugar se tornou. A casa da minha mãe não é mais um lar, é um túmulo onde ela se encerrou tão enterrada quanto meu pai. Se longe de lá eu já não estou nas melhoras condições, eu não tenho ideia de como estaria se estivesse perto. Eu não consigo, é foda demais para lidar”.
“A sua mãe ainda está na terapia?”, me perguntou. Era uma conversa que ia de um lado a outro.
“Está. E participa de um grupo também no posto de saúde lá perto de onde ela mora”, contei.
“Você devia tentar”.
“Não dá para voltar”, enfatizei.
“Não voltar; a terapia”.
Fabiano sabia que eu havia tentado mais de uma vez ir às sessões com uma psicóloga que atendia num desses lugares assistencialistas, que cobram nada ou muito pouco. Eu me mantive assíduo por mais de três meses, uma vez por semana; era pontual, até. Mesmo nas duas vezes em que a psicóloga me contatava perguntando se tudo bem eu alterar o dia da semana ou o horário excepcionalmente, eu não desisti. Mas, no fim das contas, não estava funcionando. Eu mentia, eu criava sentimentos que não tinha para compor uma história com a qual ela pudesse trabalhar. Era um personagem quem estava sendo tratado, não eu. E eu confessei isso a Fabiano, num dia de domingo que havíamos dormido juntos. Estávamos preguiçosos na cama, quando eu anunciei que ia parar com a terapia. Ele me olhou com pena, e eu fiquei com raiva. Era exatamente o mesmo olhar que fazia agora, ao me questionar.
Levantei-me subitamente e caminhei para a porta. Queria ir embora dali. Fabiano tinha entendido a minha insatisfação, sei que tinha.
“Ícaro”, ele me chamou.
Virei em resposta.
“Não quer ficar?”, ele perguntou. Eu queria, mas meio que não queria querer. Ou não podia.
“Acho melhor eu ir”, respondi. Ele meneou a cabeça em concordância, mas pareceu chateado. Eu não podia me apegar a isso. Segui para a porta.
“Ícaro”, ele voltou a chamar. “O dinheiro; vou te fazer um pix”.
Era tudo o que eu precisava. Ia me salvar.
“Não precisa, obrigado”.
E fui para casa.
***
Eu não estava com raiva do Fabiano pelas sugestões que ele tinha feito; eu sabia que não tinham em absoluto um tom recriminatório, que era apenas a forma encontrada por ele de sentir que ajudava de algum modo. O ponto central do problema era que eu não gostava de falar do assunto. Eu buscava limitar a minha vida ao presente, que era uma luta desesperadora de ter futuro, e o passado eu queria deixar inteiro amontoado numa caixa enterrada a vinte palmas da terra, mais fundo que o meu pai.
Ainda no caminho de volta para casa, esbocei uma mensagem de desculpas para ele, mas não enviei de pronto.
Um cansaço tomou conta de mim enquanto eu fazia o trajeto do ônibus, já de volta à estação Santana e, como se o tempo de novo acompanhasse os meus sentidos bagunçados, começou a chover. Colei o rosto na janela e fiquei observando os pingos atingirem o vidro e se desmancharem em pequenos rios. Só quando eu desci no meu ponto é que a tempestade me atingiu em cheio. Era um trajeto tão curto, de pouco mais de duzentos metros, mas foi o suficiente para me encharcar.
Abri a porta e tive que tirar a camiseta e o sapato se não quisesse ensopar o apartamento inteiro. Lenon, que acompanhava alguma série na TV, limitou-se a dar uma olhada rápida na minha direção e balbuciar um “e aí” desinteressado. De repente, eu me enchi de uma coragem desavergonhada.
“Ei, John”, chamei, já sabendo que era uma provocação. “Vou precisar que você contribua com trinta reais para quitar a internet esse mês ou então não vai rolar manter”.
Ele pausou a série e me encarou de um jeito cínico.
“Você só pode tá de brincadeira”.
“Eu tô encharcado e seminu na sua frente, pedindo dinheiro; eu definitivamente não brincaria nessas condições. É sério, muito sério, serião”.
“A gente tinha combinado”.
“Eu sei que a gente tinha combinado, mas rolou uns imprevistos. Então é isso, ou continuar trazendo episódio baixado em algum wi-fi por aí pra pode assistir aqui. E no celular. Vê aí o que acha melhor e me fala”.
“Que merda, hein?”.
Eu o deixei resmungando e eu fui tomar um banho quente. Afinal, já era mais de dez da noite e, mais cedo do que eu estaria preparado, chegaria a hora de ir para o trabalho.
Quando saí do chuveiro, Lenon tinha ido se deitar. Só depois de terminar de me secar, colocar uma roupa quente e me deitar é que vi a notificação no celular. Ele tinha me transferido trinta reais. Suspirei de alívio e, ao mesmo tempo, de uma vergonha sem tamanho. Eu senti que tinha feito um papel de idiota o dia inteiro, tudo por conta de míseros vinte e três reais e doze centavos. Voltei a entrar no rascunho da mensagem que tinha esboçado para Fabiano; apaguei quase tudo e enviei só “desculpa”.
Estava com tanto sono que o barulho do despertador é que me revelou que eu havia dormido. Passei o dedo como pude pelo aparelho, até desligar o som e me arrastei para me arrumar. Só quando já estava caminhando para o trabalho é que fui olhar se tinha alguma resposta. Abri a conversa e a mensagem tinha sido visualizada. Fabiano estava sem foto. Enviei um “oi” e não foi entregue. Ele tinha me bloqueado.
📚 Indicação de leitura: Os abismos, de Pilar Quintana (Intrínseca, 2022)
🎶 Indicação de música: Je sais pas si ça va, de Marie-Flore
Se você gostou desse conto, considere conhecer os Meus livros.




Fiquei com vontade de falar pro Ícaro: "Vai dar certo. Já deu." <3
Uau, que escrita incrível, me vi em cada cena, de todos os personagens. E que final, sem palavras para expressar... tô refletindo até agora. Obrigada